Cobertor

Tenho um cobertor ao qual peguei um estranho amor. Não sabia exatamente o motivo, mas escarafunchando a memória, acabei por me lembrar.

Foi um dia na praia, em Bertioga, estado de São Paulo. Descêramos ao litoral num feriado prolongado em dois casais. Na verdade, um casal mais dois avulsos; eu era um dos avulsos. A casa pertencia ao casal e nós dois outros, cada um amigo de um membro do casal, não nos conhecíamos.

Agendáramos a ida à praia com certa antecedência e, justamente no feriado, chovia.

“Que importa? Vamos descer assim mesmo!”

Descemos. Chegamos e abrimos a casa. Aquele sempre presente cheiro de mofo que impregna as casas fechadas; fora caía uma chuva fina, daquela que na cidade de São Paulo pode ficar por dias e umedecer até a alma dos paulistanos. Aliás, sempre acreditei que os paulistanos têm a alma úmida por conta da vida no planalto.

Tiramos as poucas malas e o tempo impedia qualquer excursão. Nos restavam filmes e jogos de tabuleiro. Foi isso das três da tarde às 11 da noite. Depois de jogos e um rio de cerveja, ninguém aguentava mais nada. O casal retirou-se ao seu quarto e na casa havia apenas um outro. Eu, sempre na veia do cavalheirismo, cedi o quarto à outra moça, como é o certo; ao que ela agradeceu e disse boa noite.

Fiquei com o sofá da sala e com o barulho das gotas d’água que se desprendiam do telhado. A luz da rua entrava fraca por frestas; a umidade da chuva colava-se aos objetos. Essa é uma imagem de paz que tenho em todos esses anos; a sensação de ter deixado no planalto um pouco das minhas preocupações.

Dali uns vinte minutos, meia hora, surge novamente a moça, que se chamava Gabriela. “Oi, Ricardo? Você já tá dormindo?” Ainda não estava, mas estava distraído com o ambiente. A Presença súbita dela me assustou um pouco, pois veio como um gato.

“Não, ainda não.”

“Estou sem sono… acho que vou fazer um lanche… quer alguma coisa?”

Sentei-me no sofá. “Talvez uma cerveja…”

“Hahaha! Estou comendo justamente para ver se espanto o álcool…”

Voltou da cozinha com um sanduíche e uma cerveja. Sentou-se no sofá e cobriu as pernas com o cobertor; começamos a conversar um pouco mais, pois no carro, havíamos ficado apenas nas amenidades e nas piadas.

Contou-me que estava chateada: acabara de sair de um relacionamento de três anos com um homem de que gostava, mas que era ciumento; tinham problemas de gênio. Gabriela estava desgastada, sentia um alívio tristonho. Contou-me como se conheceram, como namoraram, disse também que foi o primeiro homem ao qual se entregou. Chorou um pouco, mas ao cabo de uma hora parecia mais aliviada. Era daquelas mulheres que precisam contar o que as oprime para que se sintam livres.

Por fim, perguntou de mim e contei o que pude. Não havia muito: contei sobre Arlete, mas com um certo pudor. Nunca se sabe como reagem as pessoas aos ditos relacionamentos abertos. Gabriela sorriu.

Era já o meio da madrugada, parecia que estava ainda mais frio e úmido. Tonta de sono, enrolou-se no meu cobertor e disse tchau, até amanhã, e levantou-se para o quarto. Gabriela tinha o corpo como a alma, de uma delicadeza que eu jamais havia visto. Não era dessas que têm as curvas violentas e arredondadas e que tanto apraz aos homens. Era delgada, seios pequenos e bundinha cujas polpas cabiam nu’a mão grande. O cobertor marcara-lhe as formas gráceis.

Ela levou o meu cobertor; ainda estava um pouco bêbada. Por sorte, o sofá no qual eu dormia era um daqueles que têm baú e ali havia um cobertor puído e com cheiro de umidade. Chacoalhei-o e cobri-me; dormi como um rei.

Jamais aquela imagem saiu-me da cabeça, jamais. Passamos um bom fim de semana. Mantive contato com ela por um bom tempo, até ela reatar com o brucutu. Parece que se casaram, mas que já se separaram, coisa de ano e meio, soube por um amigo comum. Gabriela, você ainda tem o meu e-mail, escreva-me.

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“Meu papagaio não quer comer ovos fritos”

Está um pouco estranha a vida na cidade nova. Os amigos estão longe e tomar cerveja sozinho é coisa da bêbado. Sozinho, só se bebe em casa. Através do copo de martíni, a solidão rosada dos bêbados que se divertem com a sucessão de programas imbecis na televisão. O clarão cego que bate nos móveis como uma luz sideral: a fogueira de chama pálida.

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Pornografia cansa

Pornografia cansa. Até pornografia cansa. Os neotarados, essa geração maluca de adolescentes já a conhece há tempos. Quando chegam aos dezenove, vinte anos, já estão cansados de pornografia convencional. Aí entra a indústria da bizarrice: anal giratório, chuva de mijo, esporradas na cara e outras imbecilidades.

Dias desses, recebi um link do meu sobrinho, para um desses blogs ou fotoblogs do Tumblr. Há centenas (milhares?) de páginas do Tumblr dedicadas à pornografia, tanto à boa e velha, quanto à pornobizarrice. O link de uma dessas páginas era o de uma postagem com um vídeo de 90 minutos. Raridade nesses dias em que tudo precisa de senha, é pago ou está em torrents. Um bom filminho de putaria ao alcance de um clique. Quando é assim, quem não quer?

Comecei a ver o dito cujo. Filme americano. Sabe, algumas coisas estão muito erradas. A primeira cena, uma loira peituda com um ator meio decadente (ou, pelo menos, meio velhão) e era o fetiche generalizado: anal.

O homem punha e tirava o pau do orifício da loira sem o menor trabalho. Oras, sabe-se muito bem que cu dá um certo trabalho para comer e não teria a menor graça se fosse tão facilmente penetrado, como uma bola de bilhar caindo na caçapa. Mal começava e o cara já caía no lugar-comum da velocidade e das bombadas violentas, dos urros e dos gritos. Sem a menor graça.

Mesmo que a atriz seja lasseada, é preciso demonstrar um pouco de teatralidade na coisa, de dramaticidade. Fingir que não está entrando na primeira; dar umas cusparadas adicionais. Não entrar liso como um porco congelado escorregando por uma rampa!

Acho que o filme todo era composto de seis cenas, todas com casais diferentes. Não há mais anal a não ser essa primeira cena. Mas bastou. Chega.

Outra coisa que tinha de ser deixada de lado é o orgasmo externo, ou seja, quando o homem bate punheta para que o sêmen caia na cara ou nos seios da atriz. E assim mesmo a atriz continua urrando e gemendo como se estivesse sendo currada por um rinoceronte. Cansa, esse tipo de pataquada cansa.

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Batendo palmas

Nestes dias de calmaria, em que minhas saídas limitam-se ao nada por conta da perna quebrada, aconteceu-me observar um cena muito curiosa, ocorrida aqui mesmo, na sala do meu caótico apartamento.

Domingo de manhã. O telefone tocou. Era cedo e não era, porque eu ainda dormia. Atendi com a voz pegajosa de sono. Era um grande amigo meu, de São Paulo; soube do meu acidente e queria vir visitar-me. Ora, é claro, estou precisando mesmo de um pouco de normalidade, de conversa despretensiosa, venha sim. Perguntou se podia trazer a namorada; sim pode, não tem o menor problema, apenas traga cá uns acepipes e umas cervejas pois não posso andar. Está feito, ele vem na segunda de manhã, pois era sua folga.

Segunda levantei-me mais cedo para não atender a porta com a cara inchada. Arrastava-me ao banheiro para escovar os dentes quando o celular tocou, era o Guilherme, o meu amigo. Disse que está saindo já de São Paulo e perguntou se tinha problema em levar a prima da namorada que estava com ela; não, Guilherme, não tem problema. Apenas traga mais cerveja e mais salgadinho. A casa ia ficar cheia; pelo espaço exíguo aqui, poucos bastam para ter-se aquela impressão de ônibus cheio… mas é um ônibus com cerveja e salgadinho.

Aproveitei o tempo que ainda tinha para ajustar uns trabalhinhos que estava finalizando e ver um pouco de televisão. Comecei a cochilar quando o zumbido do interfone cortou as paredes. Era o Guilherme. Pode, pode deixar subir, por favor.

Apoiando-me às paredes, cheguei à porta e abri: lá estavam todos. Oi, como vai! Mas que porra você fez nessa perna? Caí. Essa é a Marlene, a minha namorada, a gente se conheceu numa excursão ao pico do Jaraguá.

Marlene tinha cara daquelas deslumbradas. Era carola até anteontem, quando a mãe forçava-a a ir à missa e, de súbito, saiu trepando adoidado. Era bonita, mas algo ali dizia tudo isso. Ademais, era muito simpática.

Atrás dela, a prima. Essa, Ricardo, é a Luciana, prima da Marlene.

Tinham a mesma estatura e pareciam-se nos traços de rosto, mas pela simples postura, entendia-se que Luciana era muito mais mulher. Terminados cumprimentos e primeiras impressões, fomos para a sala e instalamo-nos no sofá.

Guilherme também apresentou a cerveja e os salgadinhos. Continuava a trabalhar no banco. Marlene era colaboradora ativa de uma empresa, o que quer que possa ser isso. Luciana terminava a faculdade e trabalhava num escritório de advocacia.

Esse meu amigo, apesar dos empregos medianos, sempre o tive como um cara muito inteligente, daquela inteligência que não serve para nada, cheia de senso crítico. Era leitor dos grandes filósofos. Após algumas cervejas, Guilherme pôs em marcha seu discurso filosófico, sua visão de mundo, seu pensamento polêmico sobre as instituições. Notava-se a franca cara de tacho da namorada que, diga-se de passagem, sequer bebia cerveja. A prima, ao contrário, parecia vivamente interessada nas palavras do Guilherme. À vista franca Marlene murchou, transformando-se num trapo conceitual; o interesse de Luciana, ao contrário, parecia torná-la mais bela, deixava-a com a carnação mais rija. Seios, coxas e púbis marcaram-se sobre a roupa comum, porém elegante.

Cansada do que considerava certamente papo-furado, Marlene levantou-se e foi para a varanda, apreciar o mar. Vista ali, parecia a silhueta de uma freira velhinha, cheia de remorsos pela juventude perdida.

Guilherme continuava falando. Habilmente enganchava Platão, Aristóteles, Weber e a situação política atual e concepções de Estado. Luciana, como se fosse a própria musa que inspirasse toda aquela grandiloquência, olhava satisfeita, devidamente sentada no sofá, de pernas cruzadas, mas seus olhos pareciam o de uma mulher que acabara de ter um orgasmo.

E assim o monólogo de Guilherme, com algumas intervenções minhas e de Luciana correu por boa parte do dia. Marlene não aguentava ficar sentada conosco por mais de quinze minutos. Levantava-se, voltava para a varanda; ou perguntava-me se podia pegar água por conta da sede.

Depois de várias horas, o trio resolveu que era hora de ir. Marlene mal ocultava um certo alívio: eu me transformara no amigo chato que acompanha seu namorado no papo furado. Luciana levantou-se do sofá como se tivesse acabado de acordar, um olhar límpido brilhava no seu rosto, as roupas marcavam suas formas belas antes um pouco ocultas ou não percebidas. Despedidas.

Das duas, uma: ou Guilherme vai largar Marlene e ficar com a prima, ou vai comer a prima sem largar de Marlene. Ali, naquela sala, na minha presença, a atração intelectual virou sexual e da mais primitiva. Parecia que os feromônios estavam em nuvem no ar da sala. Era certo que a bucetinha da Luciana estava lá, apenas tramando. Batendo palmas.

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Mirna – parte 1

Eu não fui um adolescente tímido. Sempre que havia alguma pecinha a ser representada ou se havia a necessidade de ler em público lá estava o chato do Ricardo; mas com relação às meninas a coisa era um pouco diferente. Tinha uma pontinha de timidez – que não chegava a ser um empecilho; mas o que realmente me tolhia arrumar uma namorada ou ficante era a preguiça; a pontinha de preguiça era somente a aresta de um iceberg. Via meus amigos ficarem meses seguindo as minhas colegas de escola com galanteios vagabundos até conseguir uma sessão de beijinhos atrás de algum canto mais escuro da escola.

Em compensação, nutria pavorosas paixões platônicas, que eu mesmo chamava de paixonites; mas não as punha em prática simplesmente por preguiça. Nunca houve amor corrosivo que desse jeito na minha preguiça de titânio. Como todo rapaz da mesma idade, exercitava a minha libido por meio das revistas masculinas e da famosa punheta. Entretanto, vários dos meus colegas chegavam às vias de fato com alguma menina; estranhamente era sempre uma vizinha de algum parente que morava longe ou até mesmo em outros pontos do país. Fatos que ficavam somente de garganta.

Entre as minhas duas paixonites mais graves, travei contato com Mirna, uma colega de classe. Dois anos com a mesma turma e poucas palavras trocáramos. Foi um grupo de Matemática que nos aproximou. A classe andava má de contas; o professor, um japonês já duma certa idade e que falava um pouco para dentro – o notório som de dentadura solta -, resolveu nos juntar em grupos aleatórios (“Se deixo vocês se juntarem, vocês se juntam nas panelas de conversa…”). Como ele conhecia a turma, pegou as pessoas mais díspares e que tinham menos contato e juntou-as em vários grupos. Eu caí com Mirna, Anderson (um japonês que tinha cara de máscara de teatro Nô) e Valéria, uma menina sardenta, sem graça e intrigueira. Da sala, era provavelmente uma das mais detestadas: pelas moças, porque era futriqueira; e pelos rapazes porque era magrela e chata.

A única pessoa por quem eu nutria alguma simpatia ali era o Anderson, uma pessoa divertida; sobre Valéria, eu tinha a mesma opinião que o resto da sala, com o agravante de que, no primeiro ano do Ensino Médio, ela espalhou algum boato sobre a minha pessoa: as moças me viam e punham-se a rir pelos cantos. Mirna era a ilustre desconhecida: eu a via todos os dias, cumprimentava, mas ela não era de muitos amigos. Tinha a sua rodinha de amizades, à moda inglesa, e bastava; também não a via esquentando a cabeça por conta de namorados (como as outras várias); era serena, duma serenidade quase monstruosa para quem tem  apenas dezesseis anos.

A função do grupo era discutir o que se dava em sala: o professor Hélio dava os tópicos, comentava, expunha exemplos. Dava-nos um tempo para discutirmos o tópico e seus desdobramentos entre o grupo e até entre grupos; depois, uma bateria de exercícios. Surtiu resultado a técnica. Na prova seguinte, o professor, exultante, disse que as provas, tirando uma exceção ou outra, melhoraram visivelmente. O sistema deu certo, o professor manteve os grupos.

Íamos bem até nas relações pessoais: Anderson mostrara-se um potencial matemático. Era rápido nas deduções; não havia variável ou incógnita que lhe passasse desapercebida. Não só no meu grupo: alcançou uma fama em toda a sala. Volta e meia o professor chamava-o à lousa para resolver algum problema. O semblante tenso e o giz na mão e pronto! Estava resolvido algum monstro matemático, fosse equação com duas incógnitas, fosse u’a matriz complicada. Era gênio nato.

Valéria deixou-se-me de parecer tão antipática. Passou a ser suportável e mostrou também alguma inclinação pela Matemática. Não como a de Anderson, mas o suficiente para sobreviver aos anos de colégio e, quiçá, ao vestibular.

Eu tentava virar-me. Sempre tive muita dificuldade para cálculos e cada equação era um esforço de mil gotas de suor. Não preciso de sauna ou exercícios físicos para suar. Dê-me uma equação e eu devolvo alguns litros.

Mirna, discreta, tirava os números e suas relações de letra, sem brilhantismo, sem estardalhaço e acima da mera mendicância matemática. De nós quatro, era a mais calada. Só falava quando alguma dúvida alfinetava-a ou quando era consultada. Era sempre de sorrisos breves, nos quais nunca mostrava mais que metade dos dentes superiores. Para todos do grupo, era uma companhia agradável, mas ligeiramente refratária a tudo aquilo que fosse adentrar muito sua intimidade. Suas relações limitavam-se à conversa de amenidades; até sobre qual rapaz da sala achava mais bonitinho, ela desconversava e enfiava por outro assunto.

Desse grupo sui generis saiu a força para que pudéssemos aguentar a Matemática sem que ela nos quebrasse as costelas.

Estávamos perto do recesso de meio de ano. O segundo bimestre estava para fechar; sempre fui um aluno razoável. Somente duas disciplinas preocupavam-me: Matemática e Física. Posso dizer que meu pensamento abstrato não é dos melhores; sentia uma ponta de inveja do Anderson, mas o que eu compensava ajudando-o em História e Língua Portuguesa, matérias nas quais ele não ia lá muito bem. Eu estava saindo do prédio da escola e indo para o ponto de ônibus; morava um pouco longe e usava do coletivo. Caminhava pela rua, quando sinto um leve toque no meu ombro. Voltei-me já assustado. Ali era uma região de Curitiba não lá muito segura, muito embora, até aquele momento, não ocorrera nada.

Qual surpresa não foi quando me virei e deparei-me com Mirna que, pela respiração, viera correndo; estava com os cabelos desgrenhados e o uniforme de tactel parecendo um balão de festa junina. Estranhei, mas me voltei: “Mirna? O que houve…? Parece cansada…”. Sabe o que é, Ricardo, eu preciso falar com você um instante…”. Mirna era a única pessoa da sala que não me chama de Rick como em casa e na própria escola.

“É que eu queria alcançar você… você anda muito rápido…”, disse com um sorriso forçado.

“Diga, Mirna, o que acontece?”.

“Então, logo mais, como você bem sabe, temos a prova final do semestre, de Matemática…”.

“Sim, eu sei…”; aquilo era realmente uma aguilhoada na consciência. Saíra da escola e tentava-me distrair para esquecer daquele monstrengo que era a prova de fim de semestre; vinha justamente Mirna para me lembrar. Enfadei-me e devo ter demonstrado algum enfado através do semblante, pois vi suas sobrancelhas arquearem. Ela hesitou alguns instantes enquanto estávamos ali, parados na calçada de uma rua de comércio popular, ouvindo arengas de vendedores e o barulho dos automóveis. Fiquei com vontade de responder um “E daí” ou, pelo menos um “E…?”, mas esperei que ela prosseguisse com a fala.

Mirna não era bonita e nem exatamente feia. Hoje, lembro-me dela como ligeiramente parecida com a Rainha Elizabeth II quando novinha, quando ainda durante a Segunda guerra. O penteado e a cor do cabelo que me ficaram na mente contribuem para esse efeito.

Depois da longa hesitação e da crescente tensão que o silêncio estava acarretando, ela prosseguiu: “Então… é por conta da prova… precisava de uma ajuda sua…”. A mim? Eu mal me regia nas próprias pernas em Matemática. O sol da manhã estava começando a cozer-me a cabeça e, com o canto do olho, vi que meu ônibus se aproximava. “Amanhã cedo a gente conversa, Mirna; meu ônibus tá chegando…”. “Tá bom… tchau. até amanhã…”. Nem vi qual a reação dela, pois o tchau já ouvi quando estava longe, quase chegando no ponto. Virei-me e acenei. E a tempo, pois o ônibus estava parado no ponto. Da janela do coletivo ainda vi Mirna afastar-se na direção de onde viera; ela não mora longe da escola, mas para o outro lado.

De resto, acomodei-me no banco e, pelo sol que escorria pelos vidros, deixei-me cochilar até perto de casa. Quando desci do ônibus, praticamente esquecera-me do caso e fui almoçar e estudar.

A prova era no dia seguinte, nas aulas que se seguiam ao intervalo do meio da manhã. Eu tinha o costume de chegar à escola mais cedo, para evitar o trânsito e as aglomerações dos ônibus cheios. Era quase empre um dos primeiros a chegar, por volta das seis e vinte, seis e meia. Como tinha estudado o dia anterior inteiro, resolvi dar-me um tempo e tirei da mochila o walkman e busquei algumas fitas. Estava entretido com a música, quando vejo, diante de mim, Mirna. Tirei os fones e cumprimentei-a.

“Tudo bem, Ricardo? E então, me dá uma mão para a prova…?”

Vontade eu não tinha; didática é algo que desconheço, mas, fazer o quê?

“Bem, quais são as suas dúvidas…?”, eu disse isso não sem uma certa insegurança. Certamente ela saberia mais do que eu… ou então, era algum ponto tão obscuro que eu sequer sonhava. Ela sentou-se ao meu lado no banco e abriu o caderno. Mostrou alguns pontos das equações que envolviam potenciação e radiciação. Nada demais; aliás, falar sobre aquilo me mostrou que eu estava apto para a prova. E assim ficamos até a hora da aula; Mirna sempre com o seu olhar real, seus gestos leves, seu sorriso de meio dente; exatamente como sempre.

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Notícia de jornal em verso

Estes versinhos estavam no fundo do baú. devo tê-los escrito há uns bons dez anos. É besta, mas tem lá sua graça.

Homem desonrado vai pra casa e é currado

Ontem, na capital do Estado,
ocorreu fato muito inusitado.
Antônio João Carneiro,
de profissão pedreiro,
pegou sua mulher em flagrante
mantendo intercurso com amante.
Muito enfurecido
saca a arma e dá um tiro.
O amante, muito assustado,
sai correndo, desbaratado.
Carneiro, atrás dele corre,
mas como estava de porre,
tropeça e cai no chão.
O amante, mui maganão,
vê que Carneiro caiu,
mas nem mesmo o acudiu,
as calças lhe abaixou
e ali mesmo, o currou.
Diz o povo do costado
que o amante era avantajado.
Depois, Carneiro saiu andando
e por onde anda, anda mancando.
O amante, ignorado, fugiu;
dizem que pode ter passado o rio,
junto com a mulher do currado
com o auxílio de um bote alugado.
Prestou queixa Carneiro,
mas virou troça do bairro inteiro.

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Louco com pouco

Mais um conselho para quem mora sozinho, longe da família. Acho que logo, junto esses conselhos e edito um livro. Mas tudo bem.

O tópico de hoje é: estado alterado da consciência. Explico melhor: você trabalhou o dia todo como um boi no arado e, agora, no conforto e solidão do seu lar, você quer ficar um pouco louco. Você está acompanhado? Não tem problema, dá para ficar louco em dois também.

Vocês sabem que mexer com drogas ilícitas é algo… ilícito. Não porque seja somente ilícito: é perigoso também. É tratar com gente perigosa que não é animador de festa infantil. Gente que anda armada e não custa nada o cara querer o seu cu em lugar de uma bala não disparada, ainda mais se você tiver cara de bobo.

Então, a saída é ficar louco com o que se tem em casa ou pode ser obtido facilmente em mercados, padarias, lugares frequentados por gente mais confiável e que não quer comer o seu cu.

Poderia citar os narcóticos caseiros que o povo inventa como o tal chá de fita (algém ainda tem fita cassete em casa?), mas há substâncias tóxicas nele. Afinal, queremos ficar loucos e não ir parar no pronto-socorro com algum tipo de envenenamento.

O primeiro a ser feito é manter o estoque de cerveja em dia. Digamos que ela vai ser o “veículo”, como se diz em farmacêutica. A cerveja já deixa você mais relaxado, será o veículo para os outros nossos dois agentes principais: o tabaco.

Exatamente. Tabaco. É possível ficar louco só com esse item. A cerveja pode ser substituída até por algo mais forte, como vodca, pinga, o que for do seu agrado.

Só que não me venha com cigarrinho. Tem de ser algo mais concentrado. Recomenda-se ir a uma tabacaria, comprar um cachimbo e fumo para cachimbo. Há fumo das mais variadas marcas, inclusive alguns aromatizados. escolha o seu e ótimo. Não se esqueça de um isqueiro. Fósforo não é recomendável por dois motivos: você vai usar quase uma dezena deles (o cachimbo apaga-se com uma certa facilidade) e eles podem ficar acesos enquanto você pasma na loucura.

Pegue seu arsenal e vá para casa.

Lá chegando, ponha alguma música de seu agrado (eu particularmente fico com Assim falou Zaratustra, do Richard Strauss) e comece a beber. Uma duas latas de cerveja ou umas duas doses de vodca.

Já devidamente alcoolizado, ponha um pouco de fumo no cachimbo e comece a pitar. Puxe bastante ar até a fumaça ficar “consistente”. Costuma demorar um pouco. Faça isso umas três vezes, alternando com a bebida.

Quando você tiver terminado, você vai ver o mundo de outra maneira. Em casa, na tranquilidade; se estiver bem acompanhado, é uma boa hora para o rala-e-rola, ou também para dormir.

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Dos relacionamentos familiares

Mãe já era um assunto delicado e depois que Freud enfiou nele sua colher, ficou ainda pior.

Saio um pouco da putanesca temática habitual deste blog por conta das reclamações de um querido amigo meu, do qual mantenho sigilo sobre o nome. É uma dessas micro-celebridades de Twitter, mas, mesmo assim, é gente boníssima.

Esse meu amigo tem sérios problemas com a mãe, de quase absoluta incompatibilidade, que advêm de dois motivos: (1) não concordam em nada e (2) são assustadoramente parecidos.

Por mais absurdo que possa parecer, as pessoas com quem mais brigamos, são as que têm a personalidade e o modus operandi mental mais próximo do nosso. Entre mãe e filho, a coisa pode ficar assustadora ao ponto de um poder prever o sentimento e a próxima ação dos outros, o que vai resultar em um profundo estado de tensão caso uma parte sobreponha-se à outra.

Já me explico: analisemos o caso em tela. Meu querido amigo é um banana. Sim, desses que todo o mundo passa para trás, desses que pagam para não entrar em briga e se esforça sobreumanamente para estar em paz. Utopia. Consegue isso a duras penas e com graves remorsos; o mundo cobra das nossas aortas.

E isso estende para o lar também. O que deveria ser o refúgio do homem, transforma-se na gaiola dos horrores. Com a intenção de apaziguar os ânimos, uma personalidade concessora acaba por anular-se. E quanto mais um se anula, mais o outro o usa como cavalo e, quando se percebe, é tarde para reverter a situação.

“Que fazer, então?”, alguém deve estar a perguntar-se. O mais óbvio é zarpar. Claro que, se você tem u’a mãe controladora e rígida, isso pode ser um longo parto de quadrigêmeos. Choro, sangue e lágrimas advirão. Mas se deve sempre primar pela irredutibilidade. Mães controladoras são mestres na chantagem.

E não digo isso por ser um filho desalmado, ao contrário. Mas é que toda separação mãe e filhos é dolorosa, mas chega um momento em que os pássaros se emplumam e têm de ir-se do ninho.

Imagino que nossa vida urbana e sedentária aumentou sobremaneira o convívio de pais e filhos. Enquanto um está sob o teto paterno, é, obviamente tratado como filho… o que não cabe para um homem adulto. Por isso leiamos: horários controlados, rotina controlada, falta de privacidade… por mais liberal que os pais sejam, determinadas coisas ser-lhes-iam intoleráveis porque, afinal de contas, uma vez filho, sempre filho.

O que resta, então? A saída a todo o custo. Vá morar com um amigo; vá morar sozinho, dê um jeito, mexa-se, ou a sua vida se transformará num inferno ainda maior.

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Fumaça

Há costumes que vêm de berço. Outros, adquirimos por mimetismo. Outros ainda, por conveniência. O que lhes relato, adquiri-o por conveniência e por convivência.

Depois de alguns anos de amizade com Arlete, dividíamos tudo: tínhamos tanto de amantes eventuais quanto de esposos ou irmãos. Arlete perdera o ranço da misantropia e dividíamos quase tudo, do tálamo efêmero às cervejas.

Arlete costumava ir ao banheiro de porta aberta. Começou como uma provocação e terminou num hábito. Ela tinha a pretensão de chocar-me, o que nunca aconteceu. Um reflexo involuntário da sua misantropia recolhida: queria que eu perdesse a paciência para que brigasse com ela ou a escorraçasse de casa. Havia um tempo já que eu tinha uma moral assaz maleável e nenhuma de suas provocações conseguia me tirar do sério: camisinhas usadas que apareciam pela casa, montanhas de livros de posições sexuais, pornografia escatológica em dvds piratas. Nada. Cabe dizer somente que os dvds ela não os via, mas os deixava espalhados em pontos estratégicos de ambos os apartamentos (o meu e o dela), justamente para que eu os visse. Não sabia onde ela os arrumava; os piratas que eu frequentava (ainda não eram muitos àquela altura) só tinham pornô hétero, de modo massivo, e um pouco de pornô gay. Escatologia era exclusividade achada por Arlete.

Nada disso sendo eficaz, Arlete começou a ir ao sanitário de portas abertas. Não achava chocante, achava somente intrigante. No meu apartamento, também ia ao banheiro de porta aberta, mas quando estava sozinho. Arlete entrava no cômodo, desvencilhava-se do que estivesse cobrindo a parte de baixo, fosse calça jeans ou calcinhas sumárias, deixando ver suas pernas e nádegas de bailarina, e assentava-se grave sobre o vaso. No início, ela só urinava; vendo que eu, intrigado estava, porém não chocado, começou a defecar também de portas abertas.

O que me irritava era o cheiro. Fato é que nem o cheiro dos nossos próprios dejetos são toleráveis, que dirá dos outros. Mesmo que seja a pessoa que divida cama com você. Toda vez que eu passava pela porta do banheiro e ela estava lá, na glória da evacuação, eu lhe dava uma olhadela furtiva e um sorrisinho. Várias vezes isso tendo ocorrido, certa feita, Arlete me vendo passar provocou: “Rick, não te dá um nojinho sabendo da sua rosquinha predileta nas suas atividades normais…?”. Não pude deixar de rir daquilo.

“Uma coisa, flor”, disse eu, “é a sua rosquinha nas atividades normais. Outra é ela limpinha e cheirosa na hora do vamos-ver. Além do mais, não somos feitos à imagem e semelhança de Deus? Então, certamente Deus tem lá seus divinos dejetos… ou seja Ele homem ou mulher, deve fazer a sua limpeza, a sua chuca, para receber coisa menos fétidas…”. Foi a vez de Arlete chocar-se. Ficou boquiaberta. Prossegui: “O que mais me irrita nessa hora é o cheiro… se fosse bom, não fedia tanto. Garanto que você nunca viu nenhum daqueles filmes de escatologia que você compra e espalha por aí… gente comendo merda por prazer, ou então, gente que caga um na cara do outro… é pavoroso!”.

Arlete, passado o efêmero estupor que lhe havia tomado a face, esticou ligeiramente o braço na direção em que estava a calça pendurada e sacou do bolso um maço de cigarros e o isqueiro. Acendeu um e tragou profundamente, soltando a fumaça devagar. Conforme ela foi fumando, o odor da fumaça juntou-se à emanação pútrida dos dejetos e o ar ficou com um leve odor de incenso. “Você já pode ser monja num mosteiro hare krishna, Arlete”, eu lhe disse, “em caso de falta de incenso, já tem substitutivo: ‘ah, que incenso é esse, meu amigo? É patchuli?’, pergunta um monge… e o outro responde: ‘não, irmão: é tabaco com merda…’, ha, ha, ha, ha!”.

Nem Arlete aguentou e gargalhou: “Muito bem… então vá para lá que você, depois dessa, vai ganhar algo especial…”; fui para o quarto e esperei. Arlete não é muito adepta do sexo anal, mas sabia umas técnicas que eram suas e de mais ninguém. Além de ser o maior fetiche masculino, a cavidade é mais estreita que a vagina e aperta mais, trazendo um orgasmo explosivo.

Depois desse dia, só consigo ir ao banheiro para evacuar acompanhado do maço de cigarros. Tenho até mesmo um maço de cigarro e um isqueiro que ficam colocados atrás da coluna do lavatório.

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Pensamentos curtos

A densidade, a volumetria, o movimento. A máquina perfeita, mais perfeita de todo o Universo. A conjunção ideal, divina. A quebra da linha do pensamento, da consciência racional pelo pico de tensão proporcionado pelo orgasmo.

CoPGr, 23 de agosto de 2010.

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Alho

Foi o terceiro telefonema que recebi após a instalação da linha. Lembra-me bem porque era o terceiro dia da linha e nos outros dois dias anteriores eu recebera duas ligações, uma por dia, e ambas eram da minha mãe, desde Curitiba.

Assim que a campainha do aparelho soou, achei que era a minha mãe. Uma voz masculina. Meu primo Henrique. Fazia já seis meses que eu estava em São Paulo e, além de Arlete e Henrique, não tinha mais nenhum contacto. Arlete pouco saía de casa: quando saía, estava comigo. Quanto a Ricardo, estávamos reatando uma velha amizade de infância, então não tivera ainda oportunidade de conhecer seus amigos. Essa limitação de horizontes deixava-me um pouco limitado; não por solidão em si, mas por falta de novidades.

Puxei o telefone. Era Ricardo. Era sexta à noite; Arlete fora passar o fim-de-semana na casa da mãe; eu ficaria em casa, ouvindo música, escrevendo, dormindo. “O que você vai fazer agora…?”, perguntou Ricardo. “Eu? Nada… vou pôr uma música, fazer um rango simples e vou dormir…”; “Vamos lá, deixa de ser bundão, Rick… vamos jantar… conheço um lugar bacana e barato… depois, nós temos programa já… você vai gostar…”. Hesitei um pouco ao telefone. “Vamos lá”, prosseguiu Henrique, “você vai se arrepender se não vier… quando a gente estiver jantando, eu te conto do que se trata…”.

Conhecia razoavelmente os hábitos de Henrique. Ou era alguma noitada na casa de algum poeta bêbado que ele conhecia, ou era algum puteiro da rua Augusta. Eu estava em casa havia já algumas horas, estava descansado. Por que não? Tranquei tudo e pus-me a caminho do metrô.

Encontrei Henrique numa mesa do Violeta, na rua Augusta. “Pedi uma pizza com alho e muçarela… você gosta de alho?”. Sempre gostei. Conversamos do mais, dos acontecimentos da semana; ao mesmo tempo que queria saber o que Henrique planejava para a noite, evitava o assunto, dando ênfase a correções ortográficas, citações dos velhos acordos, puxando assunto sobre discos raros de rock. Adivinhava que desceríamos algumas quadras em direção ao Centro e ficaríamos em algum daqueles pardieiros.

Conversa vai, conversa vem; Henrique, de súbito: “Bem, chega de trela e vamos ao que interessa…”. Embora esperada a quebra, não pude deixar de sentir um arrepio.

“Vamos pagar a conta e vamos subir para a Paulista…”. Então o plano era outro. Pagamos a conta ao garçon mau humorado e fomos. Tomamos a Paulista e fomos a pé em direção do Paraíso, quase sem falar, ou trocando impressões diversas, sobre a placa de algum estabelecimento, sobre alguma silhueta mais curvilínea. Paramos diante de um prédio residencial, logo após a esquina da Brigadeiro. Henrique esfregou as mãos – estava frio – e apertou um botão do interfone. Logo o aparelho fez aquele claque característico e uma voz de mulher emitiu um longo “Siiiiiim?”; “Janice… somos nós…”; “Oi, Henrique… nós quem? Quem mais está aí com você?”; “É o meu primo… lembra?”; “É mesmo…”. O portão abriu-se num estalo e entramos.

“Ah, Rick, você vai ver que bacana…”- disse meu primo, vendo que eu não dizia nada. Subimos até o sétimo andar. Do elevador, já se via uma porta aberta, e uma fresta de luz na área escura. Henrique adiantou-se e à sua primeira passada, a luz acendeu-se; adiantou-se para porta. La dentro, uma moça morena e corpulenta… “Oi, Rique…”; Henrique interviu, voltando-se para mim: “Aqui eu sou Rique também… Janice, esse aqui é o meu primo, o Ricardo… la no Paraná a família chama ele de Rick também…”. Janice sorriu-nos e mostrou seus dentes impecáveis num sorriso luminoso. Parecia exultante.

“Vão ficar parados aí iguais a pedaços de pau…? Vamos entrando… sentem aí… a Aleja ligou e disse que já está chegando…”; “Aleja?”, perguntou Henrique. “Sim, Rique, a minha amiga mexicana… lembra dela? Te apresentei no dia da festa na casa do Gustavo… esta fazendo um intercâmbio…”. Nomes novos. Se bem que me fossem desconhecidos, traziam-me a vida por alguns instantes: Aleja, Gustavo; imaginava num relance suas feições e seus hábitos pregressos. Janice deixou-nos na sala e disse que ia passar um café. Henrique, que deveria ser habitué da casa, ligou a televisão e deixou no canal de esportes. Ficamos vendo a retransmissão de um jogo. Em alguns instantes, o cheiro de café dominava o apartamento. Janice nos trouxe algumas xícaras e Henrique ironizou: “Mas Janice, isso a gente bebe depois que enche a cara e não antes…”; Janice sorriu e respondeu: “Ah, fofucho, mas é só pra matar o tempo enquanto a Aleja não chega… visto que o seu primo é bem caladão… mas a Aleja é boa de conversa, logo deixa ele solto…”.

Fiquei um pouco envergonhado. Imerso nos meus pensamentos, não percebera que o silêncio vexatório reinava no apartamento. Sorri para Janice e desculpei-me: “É que estava com a cabeça em outro lugar…”; Ambos riram… “Não se preocupe”, disse Janice, “garanto que logo mais ela vai estar em perfeita ordem…” e deu uma ligeira gargalhada, acompanhada por Ricardo.

Daí, os três sentados no sofá da grande sala – era um apartamento antigo – começamos a engatar uma conversa mais animada. Janice disse o que fazia da vida: fazia mestrado e era professora de rede pública; pensei em que poderiam pensar os alunos com uma mulher daquela dentro da sala. Deveria ser protagonista de todos os sonhos onanistas do segundo grau inteiro.

Por minha vez, falei que havia sido transferido de Curitiba para os escritórios do Brás, da mesma editora. Ela nunca ouvira falar da Editora; de fato, era pequena e eu ainda era o responsável pelo seu ‘selo B’, de publicações adultas, que funcionava somente em São Paulo.

Nisso, tocou o interfone e Janice levantou-se para atender: “Oi? Sim? Aleja? Sim, só um minuto…”. Passou pela porta, deixando-a aberta e voltou-se para nós: “A Aleja já está subindo…”. Janice voltou para o sofá: “Agora, sim, Riques (esse plural engraçado), a gente pode começar pensar em beber… vou ver o que tem na geladeira…”. Enquanto Janice fuçava na geladeira, uma moça miúda pôs a cara pela porta: “Ôla…Djanice? Soy eu…”. Era Aleja.

Sentou-se ali conosco e logo veio Janice com copos e uma garrafa de vodca. Será que era aquilo que Ricardo programava: ficar a noite toda bebendo vodca? Ele estava mais propenso ao álcool do que eu imaginava. Conversamos bastante: Aleja, que era baixinha, mas de formas rotundas, contava o que fazia no seu intercâmbio:

“Estou terminando o que vocês tchamam de graduaçao (sem til mesmo, ela não fazia as nasais) en Estúdios Antropolôxicos… se ben que é com os povos mesoamericanos, hay un professor aqui na USP que trata ben con os teôricos que estou mexendo…”; depois, fomos bebendo e a coisa ficou menos tensa. Aleja estava do meu lado, ela tinha bem uns vinte, vinte e cinco centímetros menos que eu, ou seja, girava por volta dos 1,60. Era uma pessoa agradável e seu sotaque não era irritante… algumas palavras, chegava a pronunciá-las com perfeição, para tropeçar na pronúncia da seguinte.

Com o assunto mais descontraído, girando em torno de hábitos, de baladas, de livros lidos, de comentários de trechos e impressões, todos fomos nos soltando, com auxílio da vodca. Eu, que não era muito afeito à bebida, estava alto fazia tempo, mas me conservava sentado, apreciando o torpor provisto pelo álcool.

Por conta desse mesmo torpor, que agora me sufocava, levantei-me e fui até a janela… fiquei alguns instantes olhando para fora. Passava já da meia-noite e a avenida Paulista continuava com um movimento razoável e bastante gente na calçada. Quando voltei o rosto para onde estavam meus companheiros de tertúlia, Henrique dava um beijo cálido em Janice. Ah, então Janice era um dos rolos dele…

Eu continuava à janela e, por conta do meu estado de embriaguez, sentia-me parte da decoração, como um vaso, ou parte do papel de parede. Observava a cena sem sequer esboçar reação, como é próprio dos minerais. Consegui voltar a visão para Aleja, que parecia também não se importar com o beijo tórrido. De repente, Janice, que estava sobre Henrique, deixou-se escorregar-se e ficou com o rosto junto da braguilha da sua calça e começou a abri-la. Escarafunchou com a mão ali dentro e logo sacou o membro em riste. Sem o menor pundonor, abocanhou-o ali mesmo, na frente de dois espectadores.

Agora sim, deixei minha condição de inércia imaterial e senti o sangue quente sendo bombado do coração para todas as áreas do corpo. A surpresa reestabeleceu-me boa parte da sobriedade, mas continuei colado à parede e fazendo como quem estivesse olhando para fora. Janice sacou-se o membro da boca e disse para Henrique: “Eu sei do que você precisa…” Levanvou-se e foi à cozinha; voltou de lá com um dente de alho e uma faca. “Muito bem, moço, arria as calças…”. Ricardo prontamente arriou-as e pôs-se deitado de bruços no sofá. Janice descascou o dente de alho e cortou-o longitudinalmente pela metade. Sacou do bolso um lubrificante íntimo e com ele untou o meio dente de alho, o polegar e o indicador da mão direita. Provavelmente eu fizera cara de pasmo e Janice dirigiu-me a palavra: “É assim, eu introduzo o alho pelo… pelo cu (riu alto aqui) e a sensação de ardência, mantém o menino aqui da frente bem duro… ele consegue três sem muito descanso… anota que é um bom remédio caseiro…” e dizendo isso, Janice enfiou os dedos pelo ânus de Henrique, depositando ali o meio alho. Henrique sentou-se no sofá, meio reclinado e Janice deu cabo de suas calças que estavam nos calcanhares. Nisso, abriu agora as suas calças, abaixando-as um pouco e deixando ver magníficos glúteos. Com os joelhos no sofá e sobre Henrique, pegou-o pelos cabelos e esfregou seu rosto no baixo-ventre, soltando um gemidinho.

No meio disso, Janice voltou-se para nós, os expectadores, e disse: “Queridos, a casa é de vocês…”, e levantou-se, guiando Henrique pela mão até um quarto; sumiram-se por trás da porta que se fechou.

Achei aquilo engraçado, embora estivesse perplexo; teria que aguardar o meu primo consumar suas três relações… certamente ia algo até perto do amanhecer. Parece que senti a embriaguez retornando, lentamente, como uma sensação térmica. Dirigi-me à mesa de centro, onde repousava a terceira garrada de vodca que ainda tinha um resto. Ao pegar a garrafa, lembrei-me de Aleja, que estava ali, no mesmo canto do sofá, como se nada tivera acontecido.

Sinceramente, não sabia como dirigir-lhe a palavra depois de acontecimentos tão estranhos; ela, porém, estava exatamente como antes, sem pôr nem tirar, com a mesma expressão. Fiquei um pouco embaraçado e, lembrando da garrafa de vodca, disse-lhe: “A gente pode dividir… meio meu, meio seu…”. Aleja aceitou, estendendo-me o copo. Sentei-me no outro sofá…

Comecei a puxar conversa para tentar dissipar aquela atmosfera estranha que se instalara: “Bonita noite, não?”. E de fato era. Fazia frio, mas o céu mostrava-se limpo. Várias estrelas pontilhavam-no. “Sí, el cielo está muy hermoso… le pido desculpas, pero bebi un mucho y no tengo lengua suficiente para expresarme en portugués… ¿le molesta que yo hable en español?”; “Não, não me incomoda… espero que você também não se incomode em ouvir as respostas em português, porque não tenho espanhol suficiente para responder… bêbado então, menos ainda…    “; de uma besteira tão grande, rimos. Ficamos conversando do mais e do menos, como estávamos antes, a ponto de eu ter me esquecido da cena que se passara havia pouco.

Entonces, ¿trabajas en una editorial…? Mi hermano también…

“É trabalho… sou revisor… mas a editora mexe mais com revistas e livros leves… nada muito elaborado… e você, de que parte do México é?”

Soy del Estado de Quintana Roo, quase en Centroamerica… ¿conoces?

Nunca tinha ouvido falar. Aleja falava baixo e mudei de sofá para ouvi-la melhor. Sentei-me mais perto de si, mantendo uma distância respeitável. Exatamente no momento em que me sentei, do quarto onde estavam Janice e Henrique, uma sequência longa de gemidos percorreu o espaço, como se Janice estivesse sendo transpassada…

Ehe, parece que tú primo es un machote de los buenos, eh?

“É, deve ser…”

Aleja aproximou-se mais: “Sabe, que aquí, estamos oyendo estos gritos… nosotros… ¿para que viniemos acá?”. Achei que ela queria sair: “Você quer sair, podemos ficar bebendo em outro bar… aqui na região tem vários que ficam aberto até o fim da noite…”

No, no me interesa salir…

“Então vou ver se tem mais bebida na geladeira…” – levantei-me e voltei com mais uma garrafa de vodca. “Al que parece, te gusta la vodca… ¿o no?”; “É, sim, um pouco…”; “Sí, bueno… pónme más una copa, por favor…”. Aleja virou o copo inteiro sem pestanejar; se eu tivesse feito aquilo, estaria com a cabeça pela janela, vomitando. Seu rosto ficou completamente afogueado e ela aproximou-se de mim: “Hum… tiene hermosos ojos verdes… amarillentos… me gusta…”; e de súbito, lambeu-me o rosto. “¿Que te parece, chico? Vámonos con más una copa?”. E virou mais um copo de vodca.

Sem que eu percebesse, ela montou sobre mim e fiquei frente a frente com seus grandes seios, proporcionais a seu tamanho. Jogava-se para frente, fazendo com que os seios acariciassem o meu rosto. Então era isso que Henrique planejava: foi-se com sua amiga colorida e deixou-me com Aleja. Aleja levantou-se: “Ven, hay una outra habitación para nosotros…” e guiou-me pela mão. Apagou a luz da sala e entramos pelas trevas de um corredor. Entramos em outro quarto, diante do que estavam Janice e Henrique.

No quarto, Aleja bateu a mão no interruptor acendeu a lâmpada mais fraca, o que deu uma meia luz que deixava as formas difusas. Empurrou-me na cama e, delicadamente, abriu minha braguilha, expondo um membro que lhe latejava na mão… “Hombre, mas que hermosa polla…” e abocanhou-a. Nunca uma mulher me havia feito sexo oral – Arlete não era chegada nessa modalidade -, e Aleja, pelo que pude depreender no momento, conhecia o riscado; punha-a quase toda para dentro da boca, cheguei a preocupar-se se não iria vomitar pelo tanto que bebera. Porém, depois de alguns instantes daquela sensação maravilhosa, abandonei-me em usufruí-la.

Aleja solta-se e diz: “¿Y tú, no me lo haces nada?”, virou-se, pondo-me o baixo-ventre ao alcance da boca, enquanto era reengatava a sua boca onde estava antes. Assim como não tinha recebido sexo oral, também não o fizera. Como descrever o gosto? Como as ostras que eu gostava de comer em Paranaguá? Só que um pouco mais condimentada; quente, muito quente e constantemente vinha um gosto ligeiramente travoso… fluidos vaginais; o clitóris tinha a sensação táctil – para a língua – de uma bolinha que estava ali engastada, como uma pérola em uma joia, um piercing.

Pelo jeito eu estava acertando com a língua, pois Aleja logo arfava: “¡Ahí, ahí! Bueno… ay, que bueno… no te pares… no te pares…”, dizia com a minha polla em sua boca. “¿Ay, que no me aguanto más! ¡Vamos a follar como se debe!”; livrou-se das roupas e um corpo compacto, mas graciosamente distirbuído apareceu-me à frente. “¿Te gusta…?”; coxas roliças, seios fartos, nádegas encantadoras e ligeiramente avermelhadas, cabelos longos e encaracolados (até então estavam presos). Deitou-se na cama, ao meu lado, dando-me as costas; conduziu a minha mão de modo que eu mantivesse sua perna erguida, o que abria caminho para a penetração daquela maneira, de costas: “Ahora, tú pónmela sin piedad… ¡toda y rápido!”. Não foi difícil: a estimulação pelo cunnilingus deixou a vagina totalmente lubrificada; pus-me um preservativo que a mão rápida de Aleja me passara e o membro passou sem a menor dificuldade, como um carro por uma estrada sem pedágios. A única resposta foi um “Aaaah…”.

¡Sí, sí… así, métemela, rápido!” dizia Aleja entre suspiros profundos em um espanhol que nem em sonhos eu cogitava em ouvir. E assim ficamos por vários minutos; de súbito, Aleja parou de mover-se: “Ahora quiero otra cosa, sácate la polla de ahí y usa esto…”, passou-me o frasco de lubrificante íntimo que estava com Janice. Ficara na sala e, no escuro, quando deixamos a sala, Aleja pegou-o do chão.

Antes, levantou-se: “Me voy al baño – estávamos numa suíte – no te vayas de ahí…”; foi lavar-se. Voltou e ficou ma mesma posição, de costas… eu já sabia o que tinha de fazer e ergui já sua perna; mal encostei a glande nos grandes lábios e Aleja reagiu: “¡No, ahí no!”; será que eu a machucara?; “¿No te dé un frasco? Úsalo.”

Hesitei um pouco… “Mas, Aleixa… você quer que…?”; “Sí, tonto, pónmela ahora por el culo… te lo doy de premio… ¿o crees que me fui lavar para que?”. Untei os dedos com o lubrificante e massageei para que a musculatura da região ficasse mais relaxada. Pus um dedo; depois outro… Aleja soltava gemidinhos. “Perfecto… ahora, basta de dedos e pónme la polla. Ahora.” Untei-me o membro e, com a musculatura relaxada, deslizou a glande sem problemas.

Era outra coisa que eu nunca fizera. Um centímetro por vez. Aleja, com uma mão apertava uma nádega e com a outra se mastubava. “Esto… así, más… métela toda… ¡sí!”; e com um movimento de quadris, joguei toda a polla pelo orifício faminto. A informação que eu tinha até então era que às mulheres não lhes apatecia muito essa prática; que era uma em cem que gostava. Eu dera sorte, pelo jeito. A sensação era indescritível; a musculatura anal fazia muito mais pressão do que a pélvica e cada estocada suave era um estremecer tanto meu quanto dela. Comecei a pegar um ritmo mais forte e Aleja arquejava… sua mão que estava sobre o baixo ventre ficava cada vez mais operosa.

¡Ay, que me vengo! ¡Me vengo!”; e eu também já estava prestes a chegar ao clímax; Aleja deu um grito seco seguido de suspiros enquanto continuava acariciando seu baixo-ventre; eu continuava investindo; ela virou-se para me dar um beijo quando veio inexorável o orgasmo, durante o beijo e com os dedos cravados nas suas delicadas nádegas. Foi algo intenso, de vários segundos nos quais absolutamente perdi a consciência.

Um baque jogou-me para trás, mas não me desencaixei de Aleja… estava num dia de sorte. O período de latência deixou-me na mão naquele dia e, alguns minutos depois, recomecei o trabalho… Aleja vibrava de prazer e sua mão agitava-se sobre o baixo ventre. Com movimentos lentos, consegui um segundo orgasmo; não tão vivaz como o primeiro, mas também muito intenso.

Agora, sim, desencaixei-me e pus-me de lado. Aleja voltou-se para mim e viu o preservativo preso ao pênis, com o fruto de dois orgasmos. “¡Hombre, quanta leche! Yo soy veramente merecedora de tanto esfuerzo?”; “Você valeu cada gota de suor, Aleixa… você é maravilhosa… é baixinha, mas tem um corpo que pede isso e muito mais… e obrigada pelo prêmio…”.

Deitados, conversamos ainda por mais uma hora e meia. Aleja perguntou-me sobre minha vida sexual pregressa e viu que eu não era tão experiente assim; ela, em compensação, já fizera bastante coisa e tinha toda uma lista de preferências. Inclusive por sexo anal. “Me gusta mucho… pero hay que saber hacerlo tanto la mujer como el hombre… si no, les duele a ambos…”. Dormimos.

No dia, seguinte, todos vestidos para o café, sem uma única palavra sobre o que aconteceu desde o momento de que Janice e Henrique deixaram a sala. Tomamos café e despedimo-nos. Agradeci a hospitalidade de Janice abraçando-a. Estávamos saindo os três, eu, Henrique e Aleja; eu e Henrique íamos para a direção da Consolação; Aleja ia para os lados o Paraíso. Abraçou-nos; a mim, deu-me um beijo e pôs-me um cartão não mão: seu endereço e seu telefone.

Hasta breve, rico muchacho”. Até mais, Aleja.

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Aforismos da manhã

A Patrística (principalmente Santo Agostinho) e o funk do Senhor têm a mesma mecânica: usam das armas dos considerados inimigos para divulgar a Boa Nova e converter. A Patrística valia-se da filosofia greco-romana; o funk do Senhor, bem, vale-se do funk em si.

*  *  *

Ontem no metrô, vi uma propaganda de papel higiênico protagonizada por uma dessas insuportáveis celebridades-mirins. O slogan utilizado pelo produto é “Papel Outono, o papel do coração dos brasileiros”. Achei de mau tom a frase. É uma indelével uma associação de coração e cu.

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O Ipiranga

Depois de esclarecidos os fatos, Arlete sempre se mostrou extremamente amável comigo; tinha seus ímpetos de furor uterino, aos quais, por acordo cedia. Mas, se você é um leitor mais atento, deve ter percebido que em nenhum momento havia beijo. Eu era o vizinho e agora algo mais próximo a um amigo. Não podia de modo algum classificá-la como namorada ou ficante por que (1) ela não mo permitia e também porque (2) era diferente a nossa relação daquilo que eu tinha como referência do meu primeiro ensaio de namoro, se assim se pode chamá-lo, quando eu estava ainda terminando o ginásio. Em um namoro, prevê-se e espera-se fidelidade: Arlete deixou claro: “A vida é sua e procure quem quiser…”. Era um pacto estranho que havia entre nós, mas terminei por acostumar-me com a ideia.

Nos primeiros tempos, Arlete quis mostrar-me a cidade. Como tinha uma liberdade relativamente recente, levava-me a edifícios e museus de São Paulo e punha-se em completo êxtase ao desenrolar um cabedal de profundo conhecimento dos lugares. Um pensamento histórico infalível: o que era, o que fora, o que é e porque. Era uma entusiasta da cidade e não só do sexo sem amarras.

Ela já me levara ao Pátio do Colégio e, por suas palavras, quase via um Padre Anchieta cismando pela área da praça; levara-me ao edifício do antigo Banco do Estado de São Paulo, ao Parque do Ibirapuera, ao Solar da Marquesa de Santos – no velho solar seus olhos relampejavam quando lembrava das possíveis volúpias da Marquesa com o Imperador. Certa manhã, fiz a Arlete um pedido de turista: “Quero ir no local onde foi proclamada a Independência…”. Ela estranhou de ter-se esquecido de pontos tão importantes como o Museu do Ipiranga e o Parque da Independência. “Ó-quêi, a gente vai no próximo fim de semana…”.

Sábado seguinte, acordei às onze horas; fui providenciar o almoço porque café seria desnecessário. Por volta da uma hora, uma batida na porta. Era Arlete. “Pronto?”; “Sim…”; “Então vamos…”. Fomos até o Terminal do Parque Dom Pedro II e de lá pegamos um ônibus que nos deixaria na porta do Museu. Por acaso, quando eu era criança, algum parente que esteve em São Paulo deu-me um postal do Museu. Não via correio, mas em mãos mesmo, sem nada escrito no verso; por isso que não lembro de quem mo deu. Durante anos, ele ficara pendurado num painel de cortiça que eu tinha no meu quarto na casa dos meus pais: encimando glorioso recados e outros papéis, o Museu Paulista resplandecia em formas neoclássicas. Porém o sol fez mais e o postal, sem que eu percebesse, foi lentamente desbotando.

Pedi a Arlete que lá me levasse porque, fuçando nos baús que eu mandara vir recentemente de Curitiba, com parte dos meus pertences, achei uma pasta com a etiqueta “Coisas do quadro”, manuscrita pelo meu pai. Assim que abri a pasta, saltou-me à vista o cartão; e ali, no meio de outros papéis, o velho cartão estava mais abatido do que eu pudera perceber da última vez em que o vira: bordas gastas, marcas de dedos, cores desbotadas. Precisava ver o prédio original.

Do Parque Dom Pedro ao Museu foi uma viagem breve; e ficamos um bom tempo do lado de fora do Museu: eu queria olhar tudo, observar cada decoração. Confesso que no postal, o prédio parecia mais grandioso; não que não o seja, mas na minha cabeça de adolescente era algo descomunal. A primeira impressão foi achar a compleição dele um pouco atarracada; por sorte, a primeira impressão não ficou e os detalhes de frisos e cornijas compensaram as dimensões reduzidas pela realidade pedestre.

Entramos e olhamos tudo, por todos o corredor: um museu de generalidades, havia de tudo um pouco, como um templo do conhecimento. Arlete definiu-o melhor: era um museu com pretensões de cérebro: tinha de bustos solenes a urinóis; de urinóis havia uma sala dedicada a eles.

Depois, descemos ao monumento da Independência, chamado pelos mais precisos de Altar da Pátria. Quando subimos a avenida, eu falava com a Arlete sobre a bela e arborizada avenida Dom Pedro I e não reparara no monumento à minha esquerda; agora descíamos pelas aleias do Parque, por entre canteiros pretensiosamente versalhescos e crianças com patins e skates e seus pais relapsos. No caminho, uma singela casa de taipa, a Casa do Grito sobre a qual pairam dúvidas se é realmente a casa onde Pedro I parou por conta de problemas intestinais ou se ela foi tirada da tela de Pedro Américo sobre o tema do Grito.

No meio de um prado comprimido pela violência das pistas de asfalto, o monumento quadrado ergue-se majestoso, cheio de poses brônzeas, imortalizando o ondear das bandeiras e das roupas. Ettore Ximenes caprichou em tudo. Sob o majestoso monumento, os restos mortais do homem que separou o Brasil de Portugal. Caminhamos ao redor do monumento, observamo-lhe os bronzes bem cinzelados; de súbito, lembrei-me do hino nacional: “Ouviram o Ipiranga as margens plácidas…”.

“Arlete, cadê o Ipiranga?”, perguntei. Ela apontou com o rosto o lado para o qual o terreno caía. Fui até ali, onde havia um balaústre: havia um canal de concreto e, no fundo, tristonho, um fio de água suja. Arlete estava logo atrás de mim. “Isso é o Ipiranga?”; limitou-se a responder com um aceno de cabeça que sim.

Fiquei alguns instantes observando o meu vulto sobre a água, refletido como uma sombra. A visão do Ipiranga do jeito em que se encontrava, divisando com o local consagrado como o berço da Independência, deixou-me um pouco melancólico. Voltei para a escadaria do movimento e fiquei observando a vala do canal e a avenida. Arlete, ali pelo meio, procurava algo na grama. Que coisa! A sensação de estranhamento foi indescritível: a justaposição do pétreo sublime e da degradação da água do Ipiranga. Não saberia dizer porque exatamente, mas fui tomado por uma prostração. Só me dei conta que cismava ali, perguntando alguma resposta à grama, ao granito, à água suja, quando Arlete tocou-me o ombro e falou que era melhor irmos embora pois o sol já estava se pondo.

Em casa, a má sensação que o Ipiranga causou-me ficou presente; sua água suja borrou toda lembrança que nem um certo exagero em cerveja conseguiu limpar. Demorou um certo tempo para que o cotidiano limpasse a melancolia e a má impressão: logo as outras sujeiras maiores e o descaso ainda maior com a história e com a identidade subrepujaram o Ipiranga fétido, que morto corre sem ver por onde passa.

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Arlete

Prosseguimento de Arma em punho.

* * *

Pela manhã, na consciência tíbia do despertar, perguntei-me se sonhara mesmo todo aquele episódio singular, que me soava distante como o relato mal concatenado e atropelado da enfiada de contos eróticos que jorra pela internet. Fui lentamente acordando e assim que a percebi a luz que entrava pela janela – esqueceu-me fechá-la – vi que estava coberto com um estranho pano. Era a túnica que vestia a vizinha – agora Arlete. Ergui-me de supetão, pondo-me sentado, e vi a cama derruída e eu mesmo no meio dos destroços.

Então fora aquilo mesmo. De súbito, meu sexo lembrou-se da violência anterior e latejou em dorezinhas; o esforço foi-lhe altíssimo. Ergui-me cambaleante: doíam-me costelas e a cada aspiração parecia que meu peito abrir-se-ia, tamanho fora o esforço.

E, afinal de contas, quem era a fulana que se identificava somente como Arlete? E como era magnética! Tinha uns olhos de criatura infernal e ao mesmo tempo belos. Enquanto eu estava sentado na cama, meditando nessas questões e analisando o que fazer, soa a campainha. E eu ainda estava nu e com o preservativo preso ao sexo. Gritei um “já vou” e corri ao banheiro para livrar-me daquele penduricalho – não sem mandar junto alguns pelos pubianos – e pôr o roupão de banho por cima do corpo.

Fui à porta e olhei pelo olho mágico. Alguém de blusa e calça jeans. Uma mulher. Será? Abri a porta e dei de cara com Arlete que tinha no rosto a expressão mais doce do mundo, como uma criança que acabara de sair da moita de mato onde fora descoberta.

“Olá, vizinho. Eu preparei um café… vamos tomar…?”

No meio de uma absoluta confusão mental, balbuciei que estava num estado lastimável não sei mais em que termos, tamanha a barafunda. E ela me acalmou com uma voz tristonha:

“Não se preocupe… não vou fazer nada. Prometo… mas veste algo… parece que está pelado por debaixo do roupão…”

De fato estava, mas não era visível. O sexto sentido feminino. Enquanto punha umas calças, pensava em aproveitar o café para entender o acontecido. Estava assustado, mas não poderia recuar sem uma justificativa; nada me passava na cabeça que pudesse justificar aquilo, sem transgredir as pálidas normas sociais: e não que eu fosse grande entusaiasta da etiqueta social.

Em dois minutos estava vestido. Na porta não havia mais ninguém, mas a porta do apartamento da frente estava aberta; de lá vinha um cheiro de café feito na hora. Atravessei a área comum e detive-me à soleira; pedi licença e ouvi um “entre”.

O apartamento era bem decorado, realmente bonito; notava-se que ali morava uma mulher: pelos adereços, pela organização. “Aqui, na cozinha. Pode vir!”. Entrei na cozinha e Arlete estava diante do fogão… “Puxa uma banqueta e senta… enquanto esse leite esquenta, vamos conversando”. Recebia-me como se eu fosse um velho amigo. Sentou-se do outro lado da bancada e olhou-me novamente.

“Queria pedir desculpas por ontem…”. Emudeci e ela prosseguiu: “Vejo pela sua expressão que você ficou perplexo… e eu, que não consegui me segurar…”. Havia em seu rosto um esgar de franco desgosto. Explicou-me que estava a observar-me fazia dias. “Não sou como as mulheres comuns… eu caço, você entende? Consegue entender? Eu sei que é uma coisa que foge totalmente dos nossos valores comuns – do senso comum. Eu não consigo pensar em gracejos, em galanteios… isso nem me interessa… quando eu quero algo, vou e tomo, como faz um ladrão… e isso é assustador tanto pra mim quanto pras pessoas que estão ao meu redor…”. Ela começou a chorar; seus olhos continuavam com aquela estranha imobilidade, mas estavam avermelhados como se já estivesse chorando há horas.

Eu continuava perplexo, mas totalmente condoído por Arlete. Tirei um guardanapo do dispensador e dei-lhe; enxugou-se e prosseguiu.

“Moro sozinha porque, por conta disso que eu expliquei porcamente pra você, meu pai não quer me ver pelas costas… eu te disse ontem, não? Ele é dono de uns galpões aqui no Brás e mais um monte de imóveis pela cidade toda… vive de renda… mas eu vou te contar o motivo exato de todo esse transtorno.

“Quando eu era adolescente – melhor: quando eu entrei na puberdade – meu pai começou a mudar o comportamento dele que tinha comigo… eu não era mais somente a filha – e essa face de filha diminuiu muito pra ele – mas era uma mulher, uma pintinho num mundo cheio de gaviões. Pro meu pai, todo homem era um estuprador enrustido, um tarado ou, no mínimo, um aproveitador da honra alheia… pro meu pai, a cabeça dos homens girava em torno de descabaçar menininhas…

“Por isso, ficava em casa presa todo o tempo… a escola, fiz num colégio católico feminino. A motorista – é, era uma mulher – me pegava na porta da diretoria do colégio – ordens do meu pai – e me trazia em casa. Em casa, os empregados homens, como o jardineiro – pobre seu Vito, meu pai despediu ele depois de vinte anos de serviço! – o motorista, todos que tinham acesso direto, meu pai substituiu por mulheres.

“Fui ficando maior e, obviamente esse zelo demoníaco não me escapou desapercebido… você sabe que tudo o que é proibido desperta a curiosidade… o “porque não” nunca bastou! E as colegas de escola falavam dos rapazes com uma voz diferente daquela usada pelo meu pai, uma voz entre o meloso e sensual. Uma vez, combinei com as meninas de ver o jogo de futebol dos rapazes… fomos em três. O colégio masculino, igualmente católico, fazia fundos com o nosso colégio… havia uma passagem… uma grade, porque eram praticamente o mesmo colégio dividido em duas alas administradas pelos mesmos religiosos. Uma das minhas amigas tinha descoberto, uns dias antes, que o portão, por ser num local isolado, era pouco utilizado e ficava destrancado. O melhor: dava para uma vista privilegiada da quadra de educação física dos meninos…

“A gente foi e achou o portão destrancado… a gente passou e ficou num ponto bem atrás da arquibancada e dali dava pra ver tudo! Ah, você nem imagina o que me causou aquela visão: aqueles meninos todos suados, com as pernas expostas, atléticos… tirando um ou outro, porque sempre tem o gordinho da turma, mas mesmo o gordinho tinha ali exposto o melhor de dele! De repente, comecei a sentir uma espécie de tremedeira, entende? Eu quis avançar em direção à quadra… tremia, suava, arfava… minhas amigas, coitadas, pensaram que eu estava passando mal… e com muito esforço conseguiram me puxar para trás e de volta pro portão.

“Desejo, desejo no mais puro estado flamejante da matéria, subitamente despertado da latência! – Um vulcão!” – ela deu um soco na mesa e as xícaras ali pousadas dançaram sob os meus olhos; continuei a ouvir a narração.

“Porém, nem tudo foi flores… alguém da turma dedou a gente. Quem quer que fosse, tinha me visto, eu em especial. Sempre fui maior que as minhas colegas da mesma idade; fomos pra diretoria. A Madre urrava de raiva. Disse que nós éramos uma imorais, sacripantas e tantos outros nomes feios e estranhos que a minha memória não pôde reter. Mandou uma comunicação escrita para os pais de todas nós e queria eles lá, no dia seguinte. Quando cheguei em casa e apresentei a convocatória pro meu pai, não fiquei com menos medo dele do que teria de um leão faminto. O que tinha em suas mãos, ele foi lançando pra me alvejar… corri, passei pela cozinheira que, coitada, berrava mais que uma sirene, e com a conivência da porteira – a gente tinha uma porteira, veja só, alcancei a rua.

“Meus pais são separados e, por sorte, não moram muito longe: algumas qudras… Consegui correr e alcançar a casa dela. Não sei porque, era meu pai quem detinha a minha guarda, mas depois desse incidente, perdeu pra minha mãe. Disse a motorista que ele caiu muito doente depois disso tudo.

“Com a minha mãe, passei a ter uma vida mais normal. Ela vivia mais modestamente que o meu pai, mas com certo conforto. Continuei frequentando a escola católica – à qual voltei na semana seguinte – e a motorista, em vez de me depositar na casa paterna, andava mais umas quadras e me levava pra minha mãe. Livre do meu pai, eu estava livre pra tudo! E foi aí que começou todo o problema… creditava aos homens a culpa pelos menos sofrimentos e privações estranhas… não somente ao meu pai… e, por algum motivo obscuro, eu sabia qual a moeda que queria de reparação.

“Numa aula de Química, aleguei que não me sentia bem e deixei a freira que movia lá um tubo de ensaio sobre um bico de Bunsen, partindo na direção da enfermaria. Porém, peguei outro corredor: o que dava para os fundos do colégio. Eu sabia exatamente o que queria e como queria… tinha trazido um canivete suíço de casa e estava com ele preso pelo lado de dentro da saia do uniforme. Passei o famigerado portão que, mesmo após o incidente, continuava aberto – talvez alguma casta de funcionário usasse ele… – e me esgueirei por detrás das arquibancadas.

“Os meninos estavam saindo da quadra. Ao contrário da primeira vez, não tive tremedeiras ou suores. Estava atenta, como um leão que espreita a caça… um dos rapazes ficou para trás do grupo; estava recolhendo as bolas de futebol e ainda se abaixou pra amarrar os tênis. Saí do meu esconderijo e avancei devagar pra onde estava o menino; tanto que ele nem percebeu a minha presença. Ele era bonito… moreno, cabelos pretos, costas desajeitadas ainda, mas prenúncio de que seria um homem espadaúdo – me lembro da minha vó usando essa palavra.

“Quando ele se levantou, ainda de costas para mim, vi o quanto eu era mais corpulenta. Tinha dezesseis anos; ele, provavelmente, a mesma idade. Sempre fui assim: sólida, como diz a minha mãe, que tem o mesmo tipo físico.”

Continuei ouvindo Arlete atentamente. Algumas palavras ficavam divertidas em sua boca, tinha um vocabulário curioso, que fugia do trivial.

“Muito bem… o menino, sem me ver, ia escapulindo: segurei ele pela camiseta. Ele se assustou um pouco; deve ter se perguntado de onde raios eu tinha saído… e ficou me olhando. Puxei ele pela mão até uma sala apagada, onde só tinha colchonetes; por sorte tinha um trinco na porta… ele ficou agitado, perguntava quem eu era e o que queria. Como ele não se acalmava, saquei o canivete expus a maior lâmina, do tamanho do dedo indicador, mais ou menos” – e fez o sinal com o dedo – “Aí ele ficou quieto… talvez ele estivesse impressionado… hã, comigo, não é? Pelas minhas dimensões… com o canivete em punho, mandei que tirasse a roupa… o pobre tremia, como você ontem…”.

Não tive energias para protestar algo em minha defesa, frente àquela comparação; ainda estava cansado, mas Arlete tinha razão: o mesmo medo absurdo que eu senti, o pobre garoto também sentira… e, nessa época, eu ainda era pouco mais do que um garoto. Umedeceu a boca com o café e continuou a contar.

“Fiz da mesma maneira que fiz ontem: mandei que ele tirasse a roupa… medo e excitação sexual… duas patas do mesmo cavalo…”, enquanto disse isso, olhava os desenhos da xícara que tinha na mão, orgulhosa da própria metáfora que criara. “Seu membro? Pois é… da mesma maneira… pulsava… medo e tesão… filhos da mesma mãe…”. Assustei-me pelo relampejar dos seus olhos e com os paralelismos constantes… pensei que teríamos novamente uma sessão de doma, como a de ontem; mas logo o brilho aquietou-se.

“Tinha uma montanha de colchonetes… mandei que ele se deitasse. Com uma puxada, livrei-me da saia e da calcinha; abri as pernas e fui por cima dele… a minha vagina – ha, ha, ha! eu acho essa palavra tão engraçada… não sei porque não se usa boceta mesmo… é tão mais coloquial… mas é vulgar… prefiro “boquinha”, se você não se importa… a boquinha de baixo – bem, a dita cuja pingava… e vê só, eu era virgem! Montei o menino e, numa sentada, joguei o peso do corpo… o membro em si deslizou como faca quente na manteiga, mas senti uma dor aguda, lancinante… parei por alguns instantes e o espasmo da dor foi sumindo aos poucos. A sensação de que o membro explorava o que ninguém tinha explorado antes me excitou de tal maneira que, em poucos instantes, eu já mantinha um ritmo forte e veloz de penetração. O pobre do rapaz, entre assustado e extasiado, gemia docemente; me abaixei e o abracei… aquele cheiro que suor, de sexo, me transformou num bicho! Acelerei o ritmo e consegui, junto com a perda da minha virgindade, ter o meu primeiro orgasmo, barulhento e violento, como o de ontem, cheio de espasmos, da vagina ao colo do útero e da sensação da corrente elétrica das pontas dos pés até a raiz dos cabelos, tendo como centro a boquinha… coisa que, depois soube, era tão raro entre as mulheres…

“O pobre coitado – nunca soube o nome dele, sempre me refiro a ele como Meu Pobre – deixei ele lá, no meio da sala, extasiado, exaurido, com uma enorme mancha de sangue no baixo ventre… limpei o sangue e o esperma como pude, me vesti e saí do mesmo modo que entrei… passei pelo portão e fui ao banheiro. A aula de Química já tinha terminado, era hora de ir embora. Sequer vi a Madre que lecionava Química…

“Na hora não doeu, mas no dia seguinte, por causa da violência incontrolável, parecia que eu tinha trepado com uma manada de elefantes… mas, com os dias, a dor foi passando. Que história eu devo ter dado pra aquele moço…!

“Isso eu fiz quando tinha dezesseis anos… e é assim até hoje, que estou com vinte e três… você é a primeira pessoa a quem eu dou uma satisfação… nunca tinha atacado alguém que mora tão perto de mim… bem, isso é tudo, deixo a você qualquer juízo e… as minhas desculpas… minhas sinceras desculpas…” – e dito isso, pôs o rosto entre as mãos e começou a chorar… “Eu nem sei se você é casado… parece que não, mas eu não sei… você pode até ter uma namorada… eu acho que estraguei a vida de muita gente já…” – condoí-me dela.

Pedi para que se acalmasse: eu não tinha esposa, nem mesmo namorada. Era pouco mais que um menino. Dezoito anos mal completados, se bem que meu aspecto enganasse um pouco por causa dos traços mais duros. Disse-lhe para que parasse de chorar, que entendia em parte a sua aflição e a sua “caça” – entendia, mas não necessariamente compreendia. Perguntou-me se algum movimento mais brusco machucara-me. Respondi-lhe que, exceto por uma dor no baixo ventre e alguns roxos pela pele, nada demais. E ela chorava…

“Sabe, estou aqui, nesse apartamento, meio que como exilada… deixei a casa da minha mãe porque não tolerava a oposição dela aos meus comportamentos… ela me deixou ocupar esse apartamento que ninguém queria saber de alugar… isso já faz quatro anos…”.

Disse-lhe eu que continuaria a ser o seu vizinho e, se possível, até um amigo. E o que ela precisasse, ela poderia contar comigo; estava realmente comovido. Ela, que estava agora sentada no sofá, tirou o rosto da concha das mãos: estava rubicunda, os olhos como nascentes; e do fundo daquele desespero, fitou-me; sorriu. Parecia menor afundada daquele jeito no sofá macio. “Fique tranquila…” e estendi-lhe a mão com um copo de água com açúcar que eu providenciara.

Ainda entre lágrimas e sorrisos, ela perguntou: “Bem… fico muito contente… você não sabe como… agradeço a sua gentileza e a sua atenção… outra coisa, qual o seu nome?”. Respondi-lhe e ela prosseguiu: “Certo, Ricardo… então eu… como eu posso dizer isso…” – e ficou alguns instantes pensativa, olhando para o chão – “Então eu não preciso mais da arma, certo?”. Creio que devo tê-la olhado sem expressão… lembrara-me subitamente da arma e do pavor; ela como que se lendo as minhas inquietações, atalhou: “Desculpa ter te assustado… bem, aquela arma sequer funciona… não tem balas e está toda oxidada por dentro… era do meu vô; mas não vou precisar dela não é?”.

Disse-lhe que não, não precisaria mais daquele museu inútil. Fui até a porta do apartamento e disse-lhe que ia para casa. “Certo… fica à vontade. Depois quero ouvir a sua história da vida também… pode ser, Ricardo?”. Sim, certamente, disse-lhe eu. Ficou no sofá olhando enquanto eu me afastava de costas e fechava a porta. Fiz um derradeiro aceno, agradeci pelo café e fui para casa. Havia uma cama a ser reconstruída.

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Arma em punho

Em 2000, eu havia já terminado o colégio e o velho dono da editora em que trabalhava promoveu-me. Deixei de ser secretário e passei à revisão. Não que eu tivesse (ou tenha) um domínio extraordinário da língua portuguesa: muito do que sei é intuitivo e vem das leituras que faço, mas me valho das ferramentas disponíveis. Nunca renegue uma gramática e um dicionário; e quando digo – ou escrevo – dicionário, não estou falando do surrado badameco escolar: há de ser um dicionário taludo e de autoridade. No mínimo um Houaiss; se puder ter um Caldas Aulete, melhor ainda. Faça-o acompanhar de uma gramática do saudoso Napoleão Mendes de Almeida e mais uma modernosa. Pronto, você tem material para ser um revisor dentro da aurea mediocritas; basta ser diligente e estudar um pouco, o que, no meu caso, deu até para estudar no trabalho mesmo: havia dias que não havia nada para revisar e em vez de eu ir manchar meus dentes com café e conversa fiada ou ter de olhar para a fuça da japa boqueteira, ficava na minha sala com os livros da profissão. Vida era algo que eu mantinha fora do trabalho.

Por tanta diligência – motivada pelo desprezo que eu nutria pelos meus colegas de trabalho – o dono chamou-me à sua sala. Eu já entrevia uma demissão; essa é a vida do proletariado: por mais consciência limpa que alguém tenha, nunca é possível prever o que pensa o chefe de você e nem controlar a inevitável futrica de escritório, já disse o mestre Rossini: la calunnia è un venticello perfido.

Bati à porta de vidro fosco e escutei um esganiçado “entre!”. O velho estava na sua cadeira presidencial e fez-me sinal com a mão para que me sentasse em uma das cadeiras à frente da mesa. Já estava mentalmente lembrando em que rua ficava o sindicato, para fazer a homologação… pois bem, o que saiu dali foi um cargo na revisão da sucursal de São Paulo. O revisor-chefe de lá pedira as contas e fora para outra editora. Eu estava transferido: na semana seguinte, enfiei-me no ônibus para São Paulo.

Não conhecia São Paulo. O que me esperaria? A já repisada angústia de quem se desloca para uma cidade imensa; Curitiba é grande. São Paulo é imensa. Os escritórios da Editora ficavam no Brás, o começo da zona leste da cidade: um andar de um prediozinho comercial atarracado na rua Barão de Ladário. Devidamente apresentado, instalei-me na pequena sala do conjunto destinada ao revisor-chefe. Deixei minhas coisas no escritório mesmo e fui resolver o problema da moradia.

Para minha sorte, tenho um primo que morava havia já alguns anos em São Paulo. Morar talvez fosse um termo estranho, mas o primo Henrique vivia em São Paulo. Bati em seu endereço no largo do Paiçandu, na famosa galeria do rock onde, no último piso, praticamente deserto, ele mantinha uma loja-kitchenette. Uma loja de discos, um repouso para o corpo. Eu, que nunca apareci para uma visita sequer, vim instalar-me; apesar disso, não éramos estranhos. Frequentemente, Henrique ia à Curitiba e alternava-se entre a casa de seus pais e a minha. Recebeu-me de braços abertos e com a mais sincera boa vontade.

Fiquei três semanas em sua casa. Foi o tempo para que eu sentisse as coisas estabilizarem-se na editora; para desonerar meu primo, saí a caça de um apartamento. Rodei a própria região do escritório: rua Miller, rua Oriente, Rodrigues dos Santos, Henrique Dias. Porém, ali, só havia galpões industriais e lojas de roupas; os parcos e miserandos prédios residenciais estavam todos ocupados pelos coreanos. Fiquei com receio por conta da proverbial frieza e pela igualmente proverbial porquice creditada ao gênio da raça coreano; mas também não queria afastar-me muito do escritório a ponto de ter de pegar um ônibus. Depois de alguns dias de procura. acabei achando um simpático apartamento em um prédio baixo da avenida Carlos de Campos. Mais ou menos um quilômetro e meio do escritório. Estava bom: sairia de dia, chegaria de dia… de noite parecia que a coisa ficava mais brava pelas calçadas, mas tudo bem: com o tempo, eu poderia arranjar outro. Para o momento, bastava; o preço do aluguel era convidativo e o condomínio, irrisório.

Praticamente eu não tinha pertences em São Paulo: somente roupas. Na primeira noite que passei no apartamento de paredes sujas, os passos ecoavam como se fosse em uma grande catedral. Arrumara um colchão com um amigo do Henrique e tinha um rádio velho. As malas joguei-as por um canto da sala. Não me atrevi a pô-las no armário embutido do quarto porque não os inspecionara para ver se tinham outros habitantes além do vazio, como baratas e traças. Deixaria a tarefa de inspecionar a casa para o final de semana.

Henrique e eu já tiráramos alguma informação prévia de um dos vizinhos de andar, a vizinha da frente. Da porta só vimos belos olhos, um pouco parados e franja de lábios imersos no escuro do ambiente; ela não abriu a porta mais do que um vão de dois dedos e deixou-a presa na corrente de segurança. Conversamos por quase vinte minutos sempre desse jeito. Apresentamo-nos. Perguntamos da vizinhança e ela disse que era boa e silenciosa; perguntamos da rua e ela nos informou que era bom evitar sair depois das onze. Perguntamos se as instalações davam muito problema. O primeiro sorriso em tantos minutos, se bem que sarcástico. Era um prédio de mais de cinquenta anos: eventualmente um curto e algum vazamento. Despedimo-nos e entramos no apartamento. “Estranha a moça, não?”, perguntei; “Ressabiada demais… você tome cuidado com a região que o negócio aqui deve ser bem quente… o ideal é sair logo… aproveitar que a imobiliária concordou com um contrato de seis meses…”.

E fiquei sozinho no apartamento. Era a primeira vez na minha vida que ia dormir totalmente sozinho, melhor, em algo que eu fosse o único responsável, sem tutelas. Com o passar das semanas, comprei mobiliário, o mínimo sempre: uma cama, u’a mesa. Geladeira e fogão havia já, deixados por um antigo locatário e que faziam parte do apartamento, estava em contrato. A cama foi prioritária, pois os armários tinham sim habitantes: baratas. Enchi-os de naftalina e fiquei com receio de dormir ao nível do chão, como estava com o colchão, morria de pavor em escutar o sapateado das baratas e achar que uma delas, por algum motivo, alcançaria o meu rosto.

Depois, uma mesa, uma estantezinha modular, uma televisão. A televisão foi importante – embora eu não gostasse de assistir-lhe – pois amenizava o rumor incessante do tráfego da avenida. Eu sequer prestava atenção ao que dizia o televisor no seu giro de más notícias, somente o ruído do aparelho e a sua luz baça ressaltando o vazio dos ambientes às escuras.

Logo se instalou também a rotina. Saía para o trabalho e chegava dele; eu limpava as coisas como podia, morador e senhor de um lar pela primeira vez. Ouvia o televisor arrotando índices de inflação. Cozinhava o que sabia: vivi um bom tempo de macarrão instantâneo – e sem ser instantâneo também – e conservas. Nos finais de semana, alguns saía, outros não; demorei algum tempo para travar algum tipo de amizade no escritório, mas sempre tinha Henrique que queria fazer algo.

Nos finais de semana em que ficava em casa, lia, ouvia música, ou simplesmente dormia. Sempre gostei de dormir; mas estava a me sentir muito só. Quando saíra de Curitiba, ainda estava sob o efeito grotesco da minha última paixonite: sonhava com japonesas amarradas que pediam para serem surradas. O único alento do homem só é sua mão: sorte daquele que tem as duas.

Também aproveitava para perscrutar a vida dos vizinhos. Não por mera e reles bisbilhotice, mas para conhecer melhor as pessoas com quem dividia o prédio; de certo modo, estávamos sob o mesmo teto. No primeiro andar, havia um senhor aposentado. O negócio dele era jogar dominó: saía de manhã cedo, com a caixinha verde nas mãos e ia para o boteco na quadra seguinte; passava horas lá e voltava para o almoço. À tarde, não saía, provavelmente tirava uma pestana. Ainda no térreo, havia uma família de coreanos. Quando eu os encontrava, saindo ou chegando, eram taciturnos; pai, mãe e duas filhas estavam fora o dia todo, mesmo aos sábados e domingos – parece que tinham uma confecção nos arredores. Quando estavam entre as paredes do lar, porém, matavam-se aos gritos. Não sei se gritavam simplesmente ou se berravam na sua língua materna; línguas orientais sempre me foram algo inescrutável.

Havia uma velhinha, no andar debaixo do meu, que vivia sozinha com seu canário triste; o canário nem cantava e era de um amarelo desbotado. Havia ainda um homem careca que vivia com a família; tinha um ar bonachão, sempre ofertava um bom-dia ornado pela dentição de piano. As crianças viviam sujinhas, daquela sujeira incônscia da pobreza, da mãe que não vence limpá-las frente à agitação da infância. A mulher vivia de avental, sempre com nódoas de origem vária: café aqui, ovo ali, óleo… quase uma dona de casa de novela.

No prédio não havia somente esses habitantes; o resto, porém, afogava-se no ramerrão da gente comum e sem ornato, a gente sem graça que trabalha detrás de balcões de loja e atende a todos com o gesto mecânico do autômato. Havia ainda a moça que morava no apartamento cuja porta era defronte à minha: era um completo mistério.

Quando o caminhão de entrega trouxe o primeiro dos móveis que comprei para montar o apartamento – a mesa – esqueci-me de avisar o porteiro; ele interfonou para outro apartamento do mesmo piso. Deu-se que era justamente o apartamento onde mora a misteriosa mulher de quem eu só conhecia um olho, meio nariz e os dois lábios cuja junção escondia-se entre a folha da porta e o batente. Tudo envolto pela escuridão que reinava no interior do apartamento.

Fora ela que recebera a minha mesa e – aqui fico com o testemunho do porteiro – e ela própria levara as caixas com as peças da mesa vários lances de escada acima. Quando cheguei do trabalho, tomei um ralho do porteiro que entre engasgos e esgares raivosos contou-me como ocorreu a entrega. As caixas estavam do lado da minha porta.

Fiquei constrangidíssimo em ter involuntariamente feito uma mulher carregar tudo aquilo: era pesado, pés de ferro e tampo de granito. O que eu poderia fazer além de pedir desculpas e agradecer? Parei diante da porta e bati. Esperei um largo tempo: nada. Talvez tivesse saído, embora as pessoas do prédio com eu quem conversara até então quase não a viam. O agradecimento ficaria para outra hora: daria tempo de eu arrumar uma caixa de chocolates como uma oferenda simbólica ao seu esforço.

Puxei as caixas para dentro e deixei-as em um canto da sala; faria a montagem no fim de semana. Fui cuidar do jantar: o Apetite, de sua tribuna ácida, clamava algo substancioso; a Acídia votava pelo macarrão instantâneo. Para agradar ambas as entidades, preparei o macarrão com um refogado de alho – a cebola, vejam, acabara sem que eu percebesse. Enquanto comia, liguei o aparelho de som, o único eletrodoméstico da casa além da geladeira; havia ainda três fitas cassetes: duas de música pop e uma com a Quinta sinfonia do Gustav Mahler. Escolhi Malher e detive-me a olhar; o céu denso: em breve cairia um temporal. Mahler e temporal são coisas que estranhamente combinam. Batidas à porta. Mas ninguém interfonou… era alguém de dentro do prédio; espalmei a cara na porta para alcançar o olho mágico.

Um vulto estranho, distorcido pela convexidade da visão do olho mágico e pela sujeira nele acumulada. Um frade? Tive de abrir a porta. A primeiro momento, não reconheci quem se apresentava, mas ao mirar bem os olhos e a boca enquanto pronunciava eu o cerimonial ‘pois não’, vi que era a minha vizinha da frente. Finalmente ela ultrapassou a soleira da porta. Vestia uma espécie de túnica esquisita, que lhe dava um ar monacal. Um rosto muito bonito, ornado por bastos cabelos ondulados, de anéis bem coesos, quase como molas. Balbuciei uma desculpa e um agradecimento. Com os mesmos olhos castanhos e imóveis, disse um “de nada”.

Apesar da estranheza da minha vizinha e do inusitado das suas vestimentas, ofereci-lhe um café; sem dizer palavra, transpôs a minha soleira para o lado de dentro. Encostei a porta e segui-a: “Olha, senta aí um pouco que eu já volto… vou por uma água pra passar um café”. Sentou-se na única cadeira que havia no cômodo e eu esquivei-me para a cozinha. Enquanto procurava a chaleira que estava ainda em caixas de mudança, senti um verdadeiro medo. Irracional, como todo o medo, mas, de certa maneira, inexplicável. Pus a chaleira com água sobre o fogo e voltei para a sala. Mahler enchia a sala com suas volutas musicais; a vizinha estava de pé, olhando pela porta da varanda. Perguntou-me à queima roupa: “Você é de fora, não é?”; respondi-lhe que, com efeito, eu era de Curitiba, que tinha pouco mais de um mês de São Paulo. Ela prosseguiu: “Olha, está vendo aquela caixa d’água ali, atrás daquele prédio?” e apontava com o dedo no horizonte fosco. Tive de me acercar dela, bem perto, para poder ver a caixa d’água. Ela era ligeiramente mais baixa: era uma mulher corpulenta; as formas não eram perceptíveis sob aquela roupa estranha. Mahler enchia a sala como fumaça.

“Ali são uns galpões do meu pai… ele subloca para as oficinas de costura dos coreanos. Ajudo ele na administração, tudo por internet… por isso saio tão pouco… não gosto de gente”. Tudo isso foi dito pela vizinha sem que ela tirasse os olhos do horizonte, fixos na caixa d’água. De súbito, virou-se para mim: “E você, o que faz? Vejo você sair todos os dias, cedo”. Expliquei-lhe sucintamente o meu serviço na editora. Ela soltou um prolongado “ah…” significando “muito bem” ou “interessante”.

As trombetas da Marcha Fúnebre cortavam o ar. “Mahler?”; “Sim, Mahler”. A sala parecia ranger toda sob o efeito da música de Mahler: trincas pelas paredes abrir-se-iam e das ruínas surgiria um jardim escuro, um Éden em lusco-fusco perene. “E comprou bastante móveis…? Parece que tem pouco…”; “Sim, comprei poucos… vou mobilhar a casa aos poucos…” e sem pedir licença enfiou-se pelo corredor que dava acesso aos dois quartos do apartamento. Não queria segui-la, mas algo empurrou-me em sua direção. “Você ouve bastante música clássica, deixa naquela emissora, não é? Sempre chega um pouco de som lá em casa… num ambiente onde a coisa menos ofensiva é a música dos bolivianos, é quase uma brisa fresca…”. Abriu a porta do meu quarto. Eu estava intrigadíssimo: “Mas que abuso!”; mas não tinha voz para opor-lhe nenhuma reação.

Acendeu a lâmpada do quarto e olhou a minha pobre cama. Do lado esquerdo havia alguns livros empilhados aos quais dedicava-me à leitura alternada; ela foi examinar os livros. Não havia nada demais: Machado, Milton e Lima Barreto. Para examinar os livros, sentou-se na cama e a túnica estranha marcou-lhe o quadril: um senhor quadril, de formas rotundas. Eu continuava a sentir um medo infundado, provavelmente já transpirava. “Encoste a porta”, foi a ordem que recebi. Ordem com olhos relampejantes cravados em mim; o medo já não era algo etéreo: era de uma solidez plúmbea, deixado ainda mais intenso com o Mahler que agora entrava abafado, pelas frestas da porta.

Alguns segundos e, para meu pasmo, desfez-se da túnica como quem rasga uma folha. Estava nua, exceto por um cinto, que tinha atado um coldre e pelo monte de Vênus com pelos pretos. Era branquíssima, tinha seios aparentemente duros e que apontavam com veemência; um quadril granítico, como uma estátua de praça, pernas rijas que terminavam em pés mimosos, porém sólidos. Era toda rigidez e impassibilidade; fiquei lívido. “Senta aí…”, foi uma ordem, sentei-me com aquele sentimento misto de confusão mental e incredulidade; não conseguia conceber que aquela cena estava acontecendo. Sentei-me e ela passeou pelo soalho do quarto: sólida, com um ligeiro movimento sinuoso de grandes ancas e aquela cinta com coldre oscilando na cintura. Eu sequer sabia o que estava acontecendo, mas meu sexo já tinha dado o alarme e pulsava à vista de tudo aquilo; medo e excitação.

Sua mão deslizou ao coldre e sacou dali uma pistola. Antiga, mas que, em suma, tinha poder de fogo. Uma pistola pode ter cem anos; se tem balas, é tão perigosa quanto uma arma moderna. Com a arma na mão, fez mira em mim; mas que raios é isso? Entra aqui uma mulher vestida de maneira esquisita e termina nua e com uma arma na mão, apontada para a minha cabeça; pensei ter sido vítima de algum golpe novo… mas, ela era a vizinha… estaria ali todos os dias… e… fui interrompido por outra ordem: “Tira a roupa…”; tentei protestar, mas ela sequer se mexia. O que faria quando visse meu membro pulsante de medo e excitação? Ganharia um balaço na cabeça, sem dúvida.

Despi-me de costas entre a timidez e a certeza de um tiro pelas costas. A polícia acharia meu cadáver nu, com um tiro na cabeça. Despi-me e permaneci de costas; ouvi um risinho baixo e, em seguida, um imperativo “Vire-se”, assim mesmo: imperativo de terceira pessoa com o pronome em ênclise. Mau agouro.

Não sem certa relutância, girei-me, tentando esconder o sexo com as mãos, mas sua turgidez deixava entrever parte da reluzente glande; minhas mãos eram insuficientes para mantê-lo oculto. “Anda, tira as mãos…”. Tirei; afinal, é mais fácil obter algo com uma palavra gentil e uma arma do que só com uma palavra gentil, segundo alguém cujo nome me foge. Pela primeira vez, vi os olhos da vizinha mudarem de expressão, mas somente por breves instantes. Logo, outra ordem enérgica com voz forte e arma em punho: “Deita aí…”.

Seria inútil descrever a minha percepção naquele momento: sentia raiva, prazer, vergonha, estranhamento… tudo simultaneamente. Obedeci: deitei-me e o volume do sexo ficou ali, luzente. A vizinha aproximou-se e tirou mais algo do coldre: era um preservativo: com um gesto rápido, vestiu-o no meu sexo, apalpando-o como quem escolhe batatas na feira, como que para ver a qualidade. Sempre de arma em punho, veio para mais perto, subiu na cama, sobre mim, abriu as pernas e, de chofre, fez deslizar meu sexo pelo seu sexo quente e úmido; absurdamente quente e úmido. Era caso premeditado; ela viera com aquele estranho intuito; como eu observava os vizinhos, tinha-me observado os passos.

Começou a pular – a cavalgar, como mais comumente se diz – com uma sofreguidão absurda. “Aperta, aperta a minha bunda!”; eu apertava. A situação era estranha, mas estava aproveitando como se aquilo fosse um último pedido antes da execução; pressionava meu sexo com força contra o seu: assim que ela subia, eu abaixava o quadril, forçando o colchão e empurrava quando ela descia. Uma luta de todos os elementos da terra. Oscilava o largo quadril, comprimindo-me, os seios subiam e desciam; eu os abatia em pleno voo; o lábio inferior preso pelos dentes; os lábios da vulva selvagem deglutindo meu sexo. A cama rangia e parecia que se arrastava lentamente a cada estocada. Não sei quanto durou a peleja; vinte minutos talvez. E vi algo que até então não vira: um profundo e escandaloso orgasmo feminino. Algo violento como um gêiser em erupção: a cada espasmo ritmo do seu orgasmo, os músculos da sua vulva dançavam em frenesi apertando o meu sexo e eu também, estava chegando ao ápice.

O que me excitava e aterrorizava-me ao mesmo tempo era que a arma prosseguia na mão da colossal mulher. Com o dedo no gatilho e arma apontada para mim, a cada onda espasmódica, parecia que sua mão apertava mais fortemente a coronha e o gatilho. Mais uns instantes e eu explodi num orgasmo absurdo e animal. Rugi como a besta mais primitiva das florestas africanas, como o tigre no gáudio máximo de sua fêmea. A vizinha não ficou atrás e com o arfar de locomotiva e a outra mão sobre o meu peito em quatro ou cinco espasmos alcançou um orgasmo igualmente violento e primitivo, com rugidos de orquestra sinfônica.

Terminados os movimentos, a cama estava com o estrado partido, no chão. Sequer percebêramos. Recuperando o fôlego, ela levantou-se e expeliu meu pênis que se deixou cair como uma enguia, luzidio dos fluidos e já meio flácido. Repôs a arma no coldre, olhou-me ali, com seus olhos imóveis, caído entre os escombros da cama. Abriu a porta do quarto e afastou-se. Escutei a porta da sala abrir-se e fechar-se. Saíra nu, ou melhor, somente com o cinto. Eu estava esfalfado e com a cama em frangalhos; levantei-me, nu como estava, e fui trancar a porta. Até agora eu não conseguia entender o que acontecera e por que acontecera. Reparei agora na tigela em que comera o macarrão instantâneo: o meio do molho gorduroso, um pedaço de papel já engordurado com uma escrita a lápis: “Meu nome é Arlete”. Desliguei a chaleira que resfolegava com o mínimo possível de água para o café desnecessário.

Voltei e deitei nas ruínas da cama; cobri-me com a túnica largada por Arlete no meio do quarto e dormi envolto pelo estranho mosaico de sentimentos que me dominava.

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As novas mídias

Querida meia dúzia de freqüentadores deste blog, venho informar que agora temos ramificações no Twitter e no Tumblr. Fiquem a vontade…

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O júblio alheio

Ontem, no meio da tarde, tive de ir ao Centro da cidade por conta de indigestões de tabelião. Quando passava pelo largo de São Francisco, quase junto da porta da igreja, escuto um estranho rugido, longo e profundo. Rapidamente procurei a fonte do ruído e vejo que, em um canto não muito distante, estão sentados três maltrapilhos. Um deles está a olhar-me e tem no rosto um sorriso luminoso, de dentes todos: “Fui eu!”. Um horríssono peido e o orgulho de seu pai molambento.

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Fellatio e moral sexual

Houve um tempo em que eu era moralista. Bem, pode ser que moralista seja uma palavra muito forte, mas eu me deixava arrastar pelo falso moralismo do mundo: horrorizava-me com uma certa honestidade, censurava com algo de piedoso. Era mais um entre tantos.

Depois acabei por descobrir como tal moral é algo de pura fachada: uma Catedral de São Pedro feita de casca de ovo. A clavônica escola da vida mostrou-me isso bem de perto.

* * *

Tive duas paixonites na vida. A primeira foi no colégio, ainda em Curitiba. Fiz quatro anos de colégio porque, por intempéries mentais, acabei por reprovar justo o terceiro ano; nos três anos regulamentares, vaguei como um zumbi, inebriado em vapores de um amor que me abrasava. Não era bem amor, mas àquela época eu tentava sublimar os meus sentimentos: as vulgaridades não cabiam muito. O episódio da revistinha de sacanagem ainda me seguia de perto.

Eu achava que amava uma moça. Foi um acidente; estávamos na sala de aula, pouco antes das férias de julho, no primeiro ano. A sala que a classe ocupava tinha janelões, mas não tinha cortina. O sol do outono nos esturricava dentro da sala. Como a sala era relativamente grande, alguns de nós iam acompanhando as sombras feitas pela parede de entre as janelas e arrastavam suas carteiras. Havia uma moça que sempre conseguia pôr-se na estreita faixa de sombra.

Era ela. Comecei a observá-la: alva, sob a sombra, enquanto eu, que nunca fui lá muito rápido, transformava-me em pururuca sob o sol. Dali, do meu mini-deserto de assoalho, transformado em bérbere do conhecimento, olhava-a nas brumas, como se fosse a Europa de coroa mural refulgente do outro lado do Mediterrâneo. Ah, a sugestão que se instala na alma dos incautos.

Comecei a alimentar uma simpatia pela menina e, de pequena, virou uma afetação violenta em questão de quinze dias. Ela havia se transformado na meta suprema da minha vida, mas eu não sabia sequer como chegar nela. Como já faz parte da tradição, ela sequer percebia a minha presença: tive de fazer amizade com as meninas mais próximas do seu círculo até que consegui imiscuir-me nele.

Ah, ela era tão pura, tão cândida e… tão inacessível. Não me aborrecia aquilo; alentava-me e desanimava-me ao sabor das semanas; ela continuava ali, sorridente entre um oi e um tchau.

Um dia, eu estava no pátio do colégio no vácuo de uma aula vaga; não me lembro que adiantava uma leitura pedida pela professora de Português ou se lia algo por conta – eu era um dos poucos que lia por conta algo – quando se me veio um grupelho dos rapazes da sala, eram quatro, todos conhecidos e amigos. “E aí, tá lendo? Tá bacana?”. Ficaram ali comigo entre conversinhas típicas da faixa etária. Um levantou-se; outro… ficaram dois. Mal se afastou o último que se levantara, os dois restantes puseram-se de semblante sobrio.

A minha queda pela moça era semi-pública. A ala feminina da sala já havia percebido. A masculina escarnecia na surdina e os meus mais chegados sabiam. Os dois restantes eram desse último grupo.

“Você deveria desistir dela”, disse o Um – chamemo-los assim: Um e Dois. “Por quê?!”, devolvi numa pergunta inflamada. “Ah, meu amigo, se não te contarem, você vai ficar sabendo por si mesmo…”, complementou o dois. Ai, caramba; o que seria? “Essa fulana, meu caro, é mais rodada do que maçaneta de banheiro público e ainda zoa de você…”; prorrompi pelo ar, erguendo-me. “Senta aí…”, recomendou Dois, que era do partido mais ponderado, o homem do deixa-disso.

Sentei-me. Um prosseguiu: “Você fica aí. morrendo-se de amores por essa aí que uma bela duma vagabunda…”; “Como assim?!”, levantei-me de punhos e dentes cerrados. Dois: “Fica quieto que a gente já te explica… é o seguinte, você está aí, babando ovo, perdendo tempo… poderia ter ficado com um monte de menininhas gostozinhas que tem na escola… e está aí feito um viado chorão por causa dessa bisca…”; olhei para eles de maneira incrédula; Dois prosseguiu: “Nesses quase três anos ela ficou com um monte de caras, menos com você…”.

Era verdade. Eu mesmo já presenciara em uma ou duas ocasiões, mas alimentava a ilusão em conquistá-la com a minha… timidez. Que piada! Mentia mais para mim mesmo do que para os outros. Um tomou a palavra: “E hoje, a gente presenciou algo… que, talvez… seja pra você uma prova definitiva e faça você desistir dela… sabe aquele descampado ali atrás do prédio, onde ninguém vai?”. Cravei olhos estáticos no meu interlocutor: “Prossiga”, disse-lhe eu. “Então…”; ele fez um gesto peculiar um pouco difícil de descrever, mas vou me dar a chance pelo puro prazer anedótico. O gesto consiste em abrir a boca em um razoável bico e manter a mão com os dedos fechados em cilindro a modo de segurar algo; agita-se a mão diante da boca aberta e, com a língua, pressiona-se a bochecha do lado oposto como se o algo seguro pela mão forçasse a bochecha. Em suma, era o gestual vulgar que indicava a fellatio.

Como reagir. Nem reagia, não consegui juntar minhas energias e fiquei ali, largado no banco, incitado pelos meus amigos a esquecer a moça. A imagem que me veio à cabeça foi o elemento – a quem eu conhecia de vista – de pé, braguilha despregada e a elementa agachada na sua frente, sugando com sofreguidão gozosa o membro viril do outro. Durante dias não consegui apagar aqui, mas serviu para a dessacralização do conceito que eu tinha dela. Em poucas semanas, com o pensamento secularizado, já lhe sorria com escárnio e sorria-lhe como se sorri a uma reles vagabunda.

Vejam que o susbstantivo vagabunda, como então usado, é um conceito daquele período; hoje eu não pensaria isso dela. Exercito minha liberdade sexual; ela exercia a sua, se bem que dentro dos mesquinhos limites da sociedade moderna: um ficante, um namorado, nada mais, com a única ressalva da rápida rotatividade deles.

O problema dessa moça – e arrisco a dizer das mulheres em geral – é que quando se veem amadas ou adoradas por um homem, fazem questão de tratá-lo como lixo ou simplesmente ignorá-lo. Nada que um jato de porra certeiro no olho ou um cu bem comido não resolva. A César o que é de César…

* * *

No último ano do colégio acabei arrumando um emprego: meu primeiro emprego. Trabalhava de office boy numa pequena editora. O dono, um homem já encarquilhado de tantos anos que insistiam em habitar aquela carcaça; ele não me tratava por office boy. Eu era o secretário dele, mas tinha salário e funções de contínuo fora a agenda dos velho, que ia a almoços com outros velhos, chás com confrarias inúteis e honorárias. Na contabilidade trabalhava uma japonesinha.

Não sei o que nós homens temos com as orientais… pelo menos a grande maioria tem fetiches com japoneses amarradas, vestidas de colegial e toda a galeria fantástica da pornografia nipônica.

Nesse segundo período, eu estava mais sexual do que romântico. Vi a pobre moça amarrada e de boca vendada, pedido desesperadamente uma rola. Ou um sorriso durante a cavalgada. Mas também tinha súbitos ataques de romantismo.

Foi um colega da diagramação – que fora colega de escola da moça – a aletar-me: “Então, ela tinha um namorado no Colégio… o cara era um pouco mais velho. A sala deles – sim, estudavam na mesma sala – saiu mais cedo por conta da falta de um professor… quando a gente saiu, no horário normal, quase onze horas da noite, o carro estava lá, no mesmo lugar, algumas quadras da escola e com o vidro todo embaçado… eles não treparam ali… a rua era muito iluminada, mas a japa estava fazendo um boquete no cara…”.

Não precisou de mais nada: abortei a ideia na hora. O velho preconceito dos homens: beijar uma mulher que fez um boquete em outro homem é a mesma coisa que se você mesmo fizesse o boquete. Até é possível ver sob essa ótica se falamos de uma suruba: a moça está ali, com as coisas que lhe deu o diabo voltadas para a lua, enquanto a boca entrega-se à ruidosa faina de sucção da virilidade alheia; se findo o processo e com a boca ainda untada de sêmem ela vier para o ósculo, aí sim temos um continuum fellationis. Parece que a nipônica fêmea era exímia na arte, porém, mais uma vez o meu comportamento idiota denunciou-me: não fiquei com a moça – que me considerava um completo idiota, e eu o era efetivamente – e nem sequer prestou-me a gentileza de uma singela chupadinha.

* * *

Foram as minhas duas únicas hesitações. Depois, não me importei mais com as fellationes das minhas namoradas e parceiras. Elas foram vindo, porque deixei de ser idiota e foram indo, porque tampouco elas eram idiotas.

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Na banca de jornal

Passando pela banca hoje, dei uma olhada nas revistas. Acho que nos anos ’80 havia uma chamada Fatos e Fotos; não sei como nenhuma publicação adulta – acho esse adulta tão irônico – não criou uma Fodas e Fotos

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Vingança

É fácil vingar-se da senhoria. Ainda mais a minha, que é uma imensa filha da puta. Imensa porque é gorda feito uma porca prenha. Alguns outros inquilinos dizem que a escutam roncar na alta madrugada. Até o cara que ocupa o apartamento exatamente contíguo ao dela diz barbaridades: ela tem um collie, esse cachorro peludo que tem um aspecto triste de quem faz chapinha; segundo esse cordial e simpático vizinho, ele escuta a senhoria atraindo o pobre cachorro com biscoitos e comida e, pelos barulhos que se seguem e pelos gemidos e ganidos, ela se deixa – provoca mesmo – montar pelo cão, que vive extenuado pelos cantos. Também, com aquele rabo de cem quilos escondendo uma boceta suja, pudera!

Por conta de uma reprimenda, decidi planejar uma vingança – certo dia, deixei cair uma garrafa de vinho no chão, dentro do apartamento. Não demorou cinco minutos e a vaca estava de camisola na minha porta. E sem sutiã: dava para ver a auréola do mamilo – gigantesco, parecia um pires – por sobre o fino tecido da camisola.  Sobre a barriga – que tinha a aparência de uma laranja -uns tetões murchos como sacos de supermercados cheios d’água. Falou uma montanha de impropérios.

O que mais me ofendeu não foi a bronca em si – desnecessária, mas, em suma, passível de ocorrer em qualquer lugar – mas sim como ela veio bater à minha porta, a monstra.

Comecei imediatamente a articular uma vingança. Pensei em tosar o maldito collie, deixando-o pelado como se tivesse sarna, mas, afinal, o pobre coitado já sofria demais tendo que comer aquela boceta nojenta.

Pensei ainda em passar merda na maçaneta. Mas mexer com merda não é minha praia. Quase vomitei uma vez que tive de separar um pedaço de tolete afim de mandá-lo para análise clínica. Não há nada mais repulsivo que separar um pedaço de merda para o exame de fezes; mesmo sendo a sua.

A vingança fermentou dias na minha cabeça; como o corredor fica às escuras e a senhoria é mão de vaca e jamais instalaria câmeras de segurança, cheguei acidentalmente a uma brilhante conclusão. Uma conclusão pela pura contingência.

Voltava eu de uma pizzada com meus amigos, após o trabalho; cheguei tarde, era quase uma hora da manhã de um sábado que nascia sob o signo do frio e da garoa. Pouca gente havia no prédio nesse dia e horário. Muitos dos moradores vão ver a família, uma vez que há várias repúblicas ou, quem ficou na cidade foi putanhar por aí.

Estava com raiva porque tinha tentado comer uma amiga minha com a qual mantenho uma amizade colorida e ela havia, benevolamente, deixado para a próxima: “Hoje não, estou menstruada…”. Estava com o pau latejando de tesão e de raiva. Estava sem aquelas coxas roliças e aqueles peitinhos pequenos, mas muito apetecíveis. Fora a bunda monumental.

Entrei no prédio sem fazer um pio; o episódio da garrafa ao chão ainda estava muito presente na minha cabeça. Era bem capaz da senhoria sair do seu quarto, em camisola, para me dar um esporro ali mesmo, no meio do corredor. Girei a chave da entrada principal e entrei pé ante pé. Fechei a porta atrás de mim.

Subi o primeiro lance de escada e eis o corredor do primeiro andar; longo, muito longo, iluminado somente pela luz que vinha fracamente da rua, através de uma janela no fundo. Era uma escuridão quase absoluta, mas quando me pus a andar ali, o pouco de luz branca refletia-se em mim, nas roupas, criando uma atmosfera lunar.

Havia tomado um porre e a bebida estava cobrando seu preço ao meu equilíbrio. Tive um engulho e achei que fosse vomitar. Andei mais alguns metros e, pelo número que boiava no escuro, vi que estava na porta da minha senhoria. Nenhuma luz vinha pelas frestas da porta, mas era possível ouvir um gemido fraquinho e um ganido de cachorro. Não é que o vizinho tinha razão? Se ela não fazia com que o cachorro cobrisse o seu corpo de cevado, torturava o pobre animal de alguma outra maneira e regozijava-se com isso.

Parei diante da porta e lembrei-me da afronta recentemente sofrida. Era hora da vingança. Saquei o pau das calças e comecei a me masturbar, bem próximo da maçaneta e tomando cuidado para que o roçar da roupa não fizesse barulho. Não foi difícil um orgasmo, apesar do insólito da situação: minha amiguinha colorida de coxas grossas ainda povoava meu cérebro em decúbitos e poses caninas, oferecendo-me o seu tesouro púbico.

Quanto? Dois minutos e meio, três? O sêmem saiu em vários jorros ritmados, como num filme pornô; deu para ver o reflexo rápido na luz pálida. Como estava com a glande quase encostando na maçaneta redonda, aquele monte de seres que não serão ficaram pendurados às imundícies depositadas no metal pelas mãos da velha senhoria.

Sem sequer puxar o zíper das calças, continuei caminhando; subi mais um lance de escadas e entrei no meu apartamento. Acendi a luz e vi que não havia sêmem nas minhas calças entreabertas, somente na glande que começava a esconder-se com o famoso período de latência. Foi sorte. Mal constatei isso e precisei correr ao banheiro para vomitar.

O que houve? No dia seguinte, o prédio foi acordado por gritos. A senhoria disse que haviam cuspido na sua maçaneta e, que pela viscosidade, deveria ser alguém que estava resfriado. Eram sete horas da manhã. Prossegui deitado com e com um olhar arenoso olhei para o teto do quarto; senti a boca puxar: eu sorria. Lá pelas nove, senti meu celular vibrando: era a minha amiguinha. Hoje dava; perguntava se podia vir em casa e trazer uma garrafa de vinho.

E a maçaneta ficou por isso mesmo.

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