Eu não fui um adolescente tímido. Sempre que havia alguma pecinha a ser representada ou se havia a necessidade de ler em público lá estava o chato do Ricardo; mas com relação às meninas a coisa era um pouco diferente. Tinha uma pontinha de timidez – que não chegava a ser um empecilho; mas o que realmente me tolhia arrumar uma namorada ou ficante era a preguiça; a pontinha de preguiça era somente a aresta de um iceberg. Via meus amigos ficarem meses seguindo as minhas colegas de escola com galanteios vagabundos até conseguir uma sessão de beijinhos atrás de algum canto mais escuro da escola.
Em compensação, nutria pavorosas paixões platônicas, que eu mesmo chamava de paixonites; mas não as punha em prática simplesmente por preguiça. Nunca houve amor corrosivo que desse jeito na minha preguiça de titânio. Como todo rapaz da mesma idade, exercitava a minha libido por meio das revistas masculinas e da famosa punheta. Entretanto, vários dos meus colegas chegavam às vias de fato com alguma menina; estranhamente era sempre uma vizinha de algum parente que morava longe ou até mesmo em outros pontos do país. Fatos que ficavam somente de garganta.
Entre as minhas duas paixonites mais graves, travei contato com Mirna, uma colega de classe. Dois anos com a mesma turma e poucas palavras trocáramos. Foi um grupo de Matemática que nos aproximou. A classe andava má de contas; o professor, um japonês já duma certa idade e que falava um pouco para dentro – o notório som de dentadura solta -, resolveu nos juntar em grupos aleatórios (“Se deixo vocês se juntarem, vocês se juntam nas panelas de conversa…”). Como ele conhecia a turma, pegou as pessoas mais díspares e que tinham menos contato e juntou-as em vários grupos. Eu caí com Mirna, Anderson (um japonês que tinha cara de máscara de teatro Nô) e Valéria, uma menina sardenta, sem graça e intrigueira. Da sala, era provavelmente uma das mais detestadas: pelas moças, porque era futriqueira; e pelos rapazes porque era magrela e chata.
A única pessoa por quem eu nutria alguma simpatia ali era o Anderson, uma pessoa divertida; sobre Valéria, eu tinha a mesma opinião que o resto da sala, com o agravante de que, no primeiro ano do Ensino Médio, ela espalhou algum boato sobre a minha pessoa: as moças me viam e punham-se a rir pelos cantos. Mirna era a ilustre desconhecida: eu a via todos os dias, cumprimentava, mas ela não era de muitos amigos. Tinha a sua rodinha de amizades, à moda inglesa, e bastava; também não a via esquentando a cabeça por conta de namorados (como as outras várias); era serena, duma serenidade quase monstruosa para quem tem apenas dezesseis anos.
A função do grupo era discutir o que se dava em sala: o professor Hélio dava os tópicos, comentava, expunha exemplos. Dava-nos um tempo para discutirmos o tópico e seus desdobramentos entre o grupo e até entre grupos; depois, uma bateria de exercícios. Surtiu resultado a técnica. Na prova seguinte, o professor, exultante, disse que as provas, tirando uma exceção ou outra, melhoraram visivelmente. O sistema deu certo, o professor manteve os grupos.
Íamos bem até nas relações pessoais: Anderson mostrara-se um potencial matemático. Era rápido nas deduções; não havia variável ou incógnita que lhe passasse desapercebida. Não só no meu grupo: alcançou uma fama em toda a sala. Volta e meia o professor chamava-o à lousa para resolver algum problema. O semblante tenso e o giz na mão e pronto! Estava resolvido algum monstro matemático, fosse equação com duas incógnitas, fosse u’a matriz complicada. Era gênio nato.
Valéria deixou-se-me de parecer tão antipática. Passou a ser suportável e mostrou também alguma inclinação pela Matemática. Não como a de Anderson, mas o suficiente para sobreviver aos anos de colégio e, quiçá, ao vestibular.
Eu tentava virar-me. Sempre tive muita dificuldade para cálculos e cada equação era um esforço de mil gotas de suor. Não preciso de sauna ou exercícios físicos para suar. Dê-me uma equação e eu devolvo alguns litros.
Mirna, discreta, tirava os números e suas relações de letra, sem brilhantismo, sem estardalhaço e acima da mera mendicância matemática. De nós quatro, era a mais calada. Só falava quando alguma dúvida alfinetava-a ou quando era consultada. Era sempre de sorrisos breves, nos quais nunca mostrava mais que metade dos dentes superiores. Para todos do grupo, era uma companhia agradável, mas ligeiramente refratária a tudo aquilo que fosse adentrar muito sua intimidade. Suas relações limitavam-se à conversa de amenidades; até sobre qual rapaz da sala achava mais bonitinho, ela desconversava e enfiava por outro assunto.
Desse grupo sui generis saiu a força para que pudéssemos aguentar a Matemática sem que ela nos quebrasse as costelas.
Estávamos perto do recesso de meio de ano. O segundo bimestre estava para fechar; sempre fui um aluno razoável. Somente duas disciplinas preocupavam-me: Matemática e Física. Posso dizer que meu pensamento abstrato não é dos melhores; sentia uma ponta de inveja do Anderson, mas o que eu compensava ajudando-o em História e Língua Portuguesa, matérias nas quais ele não ia lá muito bem. Eu estava saindo do prédio da escola e indo para o ponto de ônibus; morava um pouco longe e usava do coletivo. Caminhava pela rua, quando sinto um leve toque no meu ombro. Voltei-me já assustado. Ali era uma região de Curitiba não lá muito segura, muito embora, até aquele momento, não ocorrera nada.
Qual surpresa não foi quando me virei e deparei-me com Mirna que, pela respiração, viera correndo; estava com os cabelos desgrenhados e o uniforme de tactel parecendo um balão de festa junina. Estranhei, mas me voltei: “Mirna? O que houve…? Parece cansada…”. Sabe o que é, Ricardo, eu preciso falar com você um instante…”. Mirna era a única pessoa da sala que não me chama de Rick como em casa e na própria escola.
“É que eu queria alcançar você… você anda muito rápido…”, disse com um sorriso forçado.
“Diga, Mirna, o que acontece?”.
“Então, logo mais, como você bem sabe, temos a prova final do semestre, de Matemática…”.
“Sim, eu sei…”; aquilo era realmente uma aguilhoada na consciência. Saíra da escola e tentava-me distrair para esquecer daquele monstrengo que era a prova de fim de semestre; vinha justamente Mirna para me lembrar. Enfadei-me e devo ter demonstrado algum enfado através do semblante, pois vi suas sobrancelhas arquearem. Ela hesitou alguns instantes enquanto estávamos ali, parados na calçada de uma rua de comércio popular, ouvindo arengas de vendedores e o barulho dos automóveis. Fiquei com vontade de responder um “E daí” ou, pelo menos um “E…?”, mas esperei que ela prosseguisse com a fala.
Mirna não era bonita e nem exatamente feia. Hoje, lembro-me dela como ligeiramente parecida com a Rainha Elizabeth II quando novinha, quando ainda durante a Segunda guerra. O penteado e a cor do cabelo que me ficaram na mente contribuem para esse efeito.
Depois da longa hesitação e da crescente tensão que o silêncio estava acarretando, ela prosseguiu: “Então… é por conta da prova… precisava de uma ajuda sua…”. A mim? Eu mal me regia nas próprias pernas em Matemática. O sol da manhã estava começando a cozer-me a cabeça e, com o canto do olho, vi que meu ônibus se aproximava. “Amanhã cedo a gente conversa, Mirna; meu ônibus tá chegando…”. “Tá bom… tchau. até amanhã…”. Nem vi qual a reação dela, pois o tchau já ouvi quando estava longe, quase chegando no ponto. Virei-me e acenei. E a tempo, pois o ônibus estava parado no ponto. Da janela do coletivo ainda vi Mirna afastar-se na direção de onde viera; ela não mora longe da escola, mas para o outro lado.
De resto, acomodei-me no banco e, pelo sol que escorria pelos vidros, deixei-me cochilar até perto de casa. Quando desci do ônibus, praticamente esquecera-me do caso e fui almoçar e estudar.
A prova era no dia seguinte, nas aulas que se seguiam ao intervalo do meio da manhã. Eu tinha o costume de chegar à escola mais cedo, para evitar o trânsito e as aglomerações dos ônibus cheios. Era quase empre um dos primeiros a chegar, por volta das seis e vinte, seis e meia. Como tinha estudado o dia anterior inteiro, resolvi dar-me um tempo e tirei da mochila o walkman e busquei algumas fitas. Estava entretido com a música, quando vejo, diante de mim, Mirna. Tirei os fones e cumprimentei-a.
“Tudo bem, Ricardo? E então, me dá uma mão para a prova…?”
Vontade eu não tinha; didática é algo que desconheço, mas, fazer o quê?
“Bem, quais são as suas dúvidas…?”, eu disse isso não sem uma certa insegurança. Certamente ela saberia mais do que eu… ou então, era algum ponto tão obscuro que eu sequer sonhava. Ela sentou-se ao meu lado no banco e abriu o caderno. Mostrou alguns pontos das equações que envolviam potenciação e radiciação. Nada demais; aliás, falar sobre aquilo me mostrou que eu estava apto para a prova. E assim ficamos até a hora da aula; Mirna sempre com o seu olhar real, seus gestos leves, seu sorriso de meio dente; exatamente como sempre.