Tenho um cobertor ao qual peguei um estranho amor. Não sabia exatamente o motivo, mas escarafunchando a memória, acabei por me lembrar.
Foi um dia na praia, em Bertioga, estado de São Paulo. Descêramos ao litoral num feriado prolongado em dois casais. Na verdade, um casal mais dois avulsos; eu era um dos avulsos. A casa pertencia ao casal e nós dois outros, cada um amigo de um membro do casal, não nos conhecíamos.
Agendáramos a ida à praia com certa antecedência e, justamente no feriado, chovia.
“Que importa? Vamos descer assim mesmo!”
Descemos. Chegamos e abrimos a casa. Aquele sempre presente cheiro de mofo que impregna as casas fechadas; fora caía uma chuva fina, daquela que na cidade de São Paulo pode ficar por dias e umedecer até a alma dos paulistanos. Aliás, sempre acreditei que os paulistanos têm a alma úmida por conta da vida no planalto.
Tiramos as poucas malas e o tempo impedia qualquer excursão. Nos restavam filmes e jogos de tabuleiro. Foi isso das três da tarde às 11 da noite. Depois de jogos e um rio de cerveja, ninguém aguentava mais nada. O casal retirou-se ao seu quarto e na casa havia apenas um outro. Eu, sempre na veia do cavalheirismo, cedi o quarto à outra moça, como é o certo; ao que ela agradeceu e disse boa noite.
Fiquei com o sofá da sala e com o barulho das gotas d’água que se desprendiam do telhado. A luz da rua entrava fraca por frestas; a umidade da chuva colava-se aos objetos. Essa é uma imagem de paz que tenho em todos esses anos; a sensação de ter deixado no planalto um pouco das minhas preocupações.
Dali uns vinte minutos, meia hora, surge novamente a moça, que se chamava Gabriela. “Oi, Ricardo? Você já tá dormindo?” Ainda não estava, mas estava distraído com o ambiente. A Presença súbita dela me assustou um pouco, pois veio como um gato.
“Não, ainda não.”
“Estou sem sono… acho que vou fazer um lanche… quer alguma coisa?”
Sentei-me no sofá. “Talvez uma cerveja…”
“Hahaha! Estou comendo justamente para ver se espanto o álcool…”
Voltou da cozinha com um sanduíche e uma cerveja. Sentou-se no sofá e cobriu as pernas com o cobertor; começamos a conversar um pouco mais, pois no carro, havíamos ficado apenas nas amenidades e nas piadas.
Contou-me que estava chateada: acabara de sair de um relacionamento de três anos com um homem de que gostava, mas que era ciumento; tinham problemas de gênio. Gabriela estava desgastada, sentia um alívio tristonho. Contou-me como se conheceram, como namoraram, disse também que foi o primeiro homem ao qual se entregou. Chorou um pouco, mas ao cabo de uma hora parecia mais aliviada. Era daquelas mulheres que precisam contar o que as oprime para que se sintam livres.
Por fim, perguntou de mim e contei o que pude. Não havia muito: contei sobre Arlete, mas com um certo pudor. Nunca se sabe como reagem as pessoas aos ditos relacionamentos abertos. Gabriela sorriu.
Era já o meio da madrugada, parecia que estava ainda mais frio e úmido. Tonta de sono, enrolou-se no meu cobertor e disse tchau, até amanhã, e levantou-se para o quarto. Gabriela tinha o corpo como a alma, de uma delicadeza que eu jamais havia visto. Não era dessas que têm as curvas violentas e arredondadas e que tanto apraz aos homens. Era delgada, seios pequenos e bundinha cujas polpas cabiam nu’a mão grande. O cobertor marcara-lhe as formas gráceis.
Ela levou o meu cobertor; ainda estava um pouco bêbada. Por sorte, o sofá no qual eu dormia era um daqueles que têm baú e ali havia um cobertor puído e com cheiro de umidade. Chacoalhei-o e cobri-me; dormi como um rei.
Jamais aquela imagem saiu-me da cabeça, jamais. Passamos um bom fim de semana. Mantive contato com ela por um bom tempo, até ela reatar com o brucutu. Parece que se casaram, mas que já se separaram, coisa de ano e meio, soube por um amigo comum. Gabriela, você ainda tem o meu e-mail, escreva-me.
